quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

DEU A LOUCA NO MUNDO (It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World), 1963



O diretor-produtor Stanley Kramer realizou inúmeros filmes abordando questões de cunho social e todos altamente polêmicos. A crítica nem sempre foi generosa ao comentar seus filmes e então Kramer decidiu produzir e dirigir uma comédia que deveria se chamar “Algo Menos Sério”. O projeto tomou formas de superprodução e o título final afirmava que o mundo é muito, muito, mas muito louco, isto para contar a história simples de um grupo heterogêneo de pessoas, todas com uma única intenção que é a de descobrir um tesouro de 350 mil dólares (hoje, corrigidos, seriam três milhões de dólares) enterrado sob um ‘Big W’, em Santa Rosita, na Califórnia. Paradoxalmente a comédia de Kramer parte de um dos piores defeitos do ser humano, que é a ganância, mas quem tem tempo para pensar nisso quando o filme faz rir durante toda a longa aventura do grupo? Kramer pode não ter realizado a melhor de todas as comédias, mas remeteu o público a momentos engraçadíssimos com o estelar elenco que reuniu e a ação continuada de tirar o fôlego. Spencer Tracy é o chefe de polícia e praticamente todos os comediantes do cinema e da TV daquele tempo tiveram participação maior ou simples pontas, como Buster Keaton e Jerry Lewis. Exibida no cinema com mais de três horas de duração, as cópias existentes chegam a reduzir esta delirante comédia em até uma hora. 9/10


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

PRIVILÉGIO (Privilege), 1967


É curioso este filme ter causado tão grande impacto quando de seu lançamento, isto porque, a esse tempo, astros do rock e anteriormente do rock’n’roll eram mais conhecidos pela rebeldia que pelo conformismo expresso na maior parte da película. “Privilégio” trata da manipulação de um cantor, o mais famoso de uma Inglaterra em tempos da Swinging London, por parte daqueles que guiam sua carreira. O grande ídolo do momento na Inglaterra é Steven Shorter (Paul Jones) e a Igreja e o Estado, em conluio com seus empresários e ainda com os investidores, todos inescrupulosos, usam-no para encaminhar os movimentos sociais que lhes interessam. O cantor tem sua imagem violenta convertida em arauto da igreja, da paz e até mesmo adquirindo milagrosos poderes de cura. Todos ganham com isso mas não contam que Shorter, apoiado pela namorada Vanessa Ritchie (Jean Shrimpton), reflete e decide ser ele mesmo e não mais a marionete na qual o transformaram. Isso significa o seu fim artístico e em menos de um ano Shorter não passa de uma mera lembrança. O diretor Peter Watkins consegue duas ou três sequências que impressionam bastante mas o filme é, em seu conjunto, inconvincente. Paul Jones, que era vocalista da banda Manfred Mann, e Jean Shrimpton, então a mais famosa modelo daquela década, surpreendem por interpretarem bastante bem seus personagens. 6/10



sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

IRMÃO SOL, IRMÃ LUA (Brother Sun, Sister Mon), 1972


Franco Zefirelli passou de diretor de óperas a diretor de filmes levando magnificamente Shakespeare às telas com “A Megera Domada” e “Romeu e Julieta”, especialmente este último que alcançou enorme sucesso de público. Para seu terceiro filme Zefirelli decidiu filmar a vida de Francisco de Assis, um dos santos mais admirados da Igreja Católica. “Irmão Sol, Irmã Lua” resultou num filme desigual contendo alguns momentos admiráveis, embalados por uma trilha sonora enternecedora (Donovan) e fotografia igualmente muito bonita. A produção muito bem cuidada e os cenários, parte deles naturais da Toscana, fruto de uma direção de arte primorosa, não são acompanhadas por diálogos à altura e que por momentos se tornam enfadonhos de tão repetitivos na intenção de situar o apego de Francisco (Graham Faulkner) aos pobres e doentes. Os jovens atores principais não foram escolhas das mais felizes, tanto que sequer fizeram carreira no cinema. Para compensar há a pequena mas ótima participação de Alec Guinness como o Papa Inocêncio III e ainda a de Valentina Cortese como a mãe de Francisco. À época chegou-se a dizer que o filme de Zefirelli seria uma metáfora ao movimento hippie dos anos 60, mas católico fervoroso (e homossexual) que era, o diretor quis mesmo fazer o filme definitivo sobre a vida do santo. Impossível não se emocionar com a sublime música de Donovan. – 7/10




segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A MORTE NUM BEIJO (Kiss me Deadly), 1955


Mickey Spillane é um dos dez autores que mais venderam livros em todos os tempos nos USA. Isto mesmo sendo considerado um escritor de histórias policiais de segunda categoria, incomparavelmente inferior a Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O detetive particular Mike Hammer, principal personagem de muitos livros de Spillane é cínico, sádico, paranóico e era assim que agradava e até hoje agrada aos leitores. Mike Hammer, interpretado por Ralph Meeker, foi levado ao cinema por Robert Aldrich em 1955, em “A Morte num Beijo”, já nos estertores do filme noir e mesmo assim se tornou o mais influente filme do gênero. De Godard a Tarantino, muitos diretores copiaram a singularidade de “Kiss me Deadly”, não apenas influente como o mais brutal, assustador e inovador de todos os ‘noirs’. Desde as imagens iniciais com uma mulher descalça correndo desesperada em uma rodovia até o final apavorante, Aldrich exaspera o espectador através das muitas mortes e torturas chocantes, algumas destas infligidas pelo próprio detetive durão. Obviamente em preto e branco, filmado em grande parte nas ruas, tem, ao lado dos clássicos gângsters, agentes interessados em uma mala com material radiativo e ainda diversas mulheres fatais. “A Morte num Beijo” é um dos grandes clássicos da década e do gênero e uma atração à parte são os carros esporte que Mike Hammer utiliza (Jaguar, Corvette e um MG). 9/10.



domingo, 5 de janeiro de 2020

A DAMA DO LOTAÇÃO, 1978


Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, também escreveu contos quando trabalhou na Última Hora (1951/1960). Sua seção nesse jornal se chamava ‘A vida como ela é’ e um dos contos publicados foi “A Dama do Lotação”, adaptado para o cinema por Neville d’Almeida em 1978. O diretor foi acusado de plagiar “A Bela da Tarde”, de Luís Buñuel, filme famoso lançado em 1967. Ocorre que “A Bela da Tarde” foi um romance escrito por Joseph Kessel em 1928 e fica a dúvida: teria Nelson Rodrigues lido esse livro e se inspirado para escrever a história da mulher casada que não sentindo prazer com o marido passa a buscar satisfação com amantes desconhecidos que encontra? A grande sacada de Nelson Rodrigues foi o fetiche de Solange (Sonia Braga) procurar homens em transportes coletivos, a lotação do título. Os homens que a levam a motel como o melhor amigo do marido e o próprio sogro não lhe dão prazer como os anônimos passageiros dos ônibus. Muitos dos elementos comuns à obra de Nelson Rodrigues, especialmente a hipocrisia da classe média e sua visão das mulheres, estão presentes neste filme amoral que alcançou enorme sucesso. Sonia Braga belíssima e esbanjando sensualidade têm, pelas mãos do diretor, as mais excitantes sequências lúbricas que nosso cinema já mostrou. Memorável a canção-tema de Caetano Veloso. 7/10



sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O RENEGADO DO FORTE PETTICOAT (The Guns of Fort Petticoat), 1957


Mulheres, de um modo geral, não apreciam faroestes. Quando perguntadas sobre isso algumas dizem que assistiram “Butch Cassidy e Sundance Kid” e certamente atraídas não pela historia dos dois foras-da-lei mas sim pela dupla de atores principais (Paul Newman e Robert Redford). Mas há um western que certamente prenderá a atenção do público feminino, isto porque as heroínas do filme são três dúzias de mulheres que, lideradas por um tenente do Exército da União, defendem uma missão onde se encontram escondidas dos Comanches. A ação se desenrola durante a Guerra Civil norte-americana e guarda alguma semelhança com a defesa do Álamo uma vez que o exército de saias parece destinado a ser exterminado pelos guerreiros que sitiam a missão. No entanto ocorre uma surpresa, que não é a clássica chegada da Cavalaria anunciada por um toque de corneta, e a maioria das mulheres sobrevive. Além da ação constante que causa emoção, este faroeste têm muitos momentos engraçados e, mulheres mostrando seu valor e, como não poderia faltar, também romance. O herói da II Guerra Mundial Audie Murphy, ator que como poucos atuou e manteve fãs no gênero, é o bravo desertor renegado do título mas os destaques são mesmo seus ‘homens’, isto é o exército de saias. – 8/10


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O DESTINO BATE À SUA PORTA (The Postman Always Rings Twice), 1981


A história de James M. Cain já havia sido levada ao cinema por três vezes (na França em 1936, na Itália por Luchino Visconti em 1943 e no ‘noir’ com Lana Turner em 1946). Mas parece que Hollywood queria ser o mais fiel possível do livro de Cain, o que então seria permitido e decidiu refilmá-lo em 1981 em uma mais esmerada produção fadada ao sucesso. Porém nem Jack Nicholson (o astro do momento) ao lado de Jessica Lange (a mais promissora estrela daqueles anos), nem a fotografia do sueco Sven Nikvist ou o roteiro de David Mamet e as sequências de sexo explícito tão ardentes quanto violentas foram suficientes para que este filme de Bob Rafelson chegasse perto do fascinante clássico de 1946. Se há algo que torna esta versão memorável são as excelentes atuações de Nicholson e de Jessica Lange, especialmente nas referidas sequências de inacreditável eroticidade. No entanto quando a trama, passada em plena depressão nos anos 30, deixa de ser sobre a lasciva e avassaladora paixão entre a esposa insatisfeita, o sedutor aventureiro e o velho marido alcoólatra resultando em assassinato, se torna mera história policial-tribunal repleta de reviravoltas, o filme desanda. Não sem antes conter a mais bizarra e desnecessária ‘participação especial’ do cinema com a presença de Anjelica Huston. John Colicos é o marido grego vítima dos amantes Nicholson e Lange.  – 6/10



quinta-feira, 28 de novembro de 2019

VIDAS AMARGAS (East of Eden), 1955


John Steinbeck escreveu um caudaloso romance sobre uma família da Califórnia que remete aos personagens bíblicos Caim e Abel. Levado para o cinema por Elia Kazan o roteiro aborda apenas um terço do livro de Steinbeck e com isso os conflitos entre o pai Adam (Raymond Massey) e o filho Cal (James Dean) e entre Cal e seu irmão Aron (Richard Davalos) prescindem de melhor estrutura. A figura da mãe Kate (Jo Van Fleet) é ainda mais nebulosa enquanto Kazan foi mais feliz ao mostrar como Abra (Julie Harris) troca Aron, o namorado certinho, pelo atormentado Cal. A angústia de Cal, bem como sua inveja do irmão mais amado pelo pai, tudo prescinde de razão que os trejeitos que Dean impõe ao personagem são insuficientes e em nada colaboram com a essência da história. Porém este filme é cultuado e considerado para muitos como a melhor interpretação de James Dean, ele que passa o filme todo exercitando os maneirismos que em Marlon Brando soavam mais autênticos e que Dean torna caricatos. Fazendo caretas, encostando-se às paredes, revirando os olhos e correndo quando deveria andar, James Dean provoca comoção em seus admiradores do mesmo modo que irrita quem vê isso como excessos interpretativos ensinados no Actors Studio. “Vidas Amargas”, que tem a ótima Jo Van Fleet, é um drama que Kazan tornou intenso e sombrio mas que termina com uma sequência piegas no leito de morte de Adam. 6/10




sexta-feira, 22 de novembro de 2019

OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen), 1967


Este é um daqueles filmes que, ao final, comportam a expressão: “Que filmaço!” Divertimento garantido com 150 minutos de duração que não pretende ser nenhum libelo contra a insanidade das guerras mas que demonstra como homens são mandados para a morte em missões pensadas pelos estrategistas de gabinete. A missão no caso é incendiar e matar dezenas de oficiais alemães que se divertem num castelo na França ainda ocupada. Doze homens são escolhidos para isso, a metade deles condenados à morte e os demais a penas de 20 a 30 anos por tribunais militares. O que poderia ser uma missão impossível torna-se exequível porque estarão sob o comando do Major Reisman (Lee Marvin), truculento mas justo e corajoso oficial que exige a comutação das penas do grupo todo. Algumas das sequências da preparação dos ‘doze encardidos’ são memoráveis e hilariantes e o clímax com a invasão do chateau é emocionante. Lee Marvin na atuação de sua vida, soldado condecorado que foi na II GG, está magnífico, irreverente com seus superiores e dirigindo blindado de muitas rodas. O elenco fantástico tem um Charles Bronson excelente, Ernest Borgnine e George Kennedy fazendo rir, Robert Ryan, Telly Savalas, Donald Sutherland, John Cassavetes e muitos outros nomes, todos otimamente aproveitados pela direção inspirada de Robert Aldrich em merecido enorme sucesso de bilheteria. Darci Fonseca – 9/10





terça-feira, 5 de novembro de 2019

CHOFER DE PRAÇA, 1959


Primeira produção da PAM, produtora de Amácio Mazzaropi, desta vez contando as aventuras do caipira Zacarias (Mazzaropi) dirigindo um carro de praça pelas ruas de São Paulo. Zacarias (a quem chamam ‘por caria’) sai de sua cidadezinha com a esposa Augusta (Geny Prado) para ficar mais perto do filho Raul (Celso Faria) e ajudá-lo a concluir o curso de Medicina. Mas Raul é um filho ingrato e se envergonha da pouca instrução, modos rudes e pobreza do pai, a quem explora tanto quanto a vontade de ignorá-lo. A direção de Milton Amaral conduz bem o roteiro escrito por Mazzaropi nesta comédia com tons dramáticos em que os melhores momentos, como não poderia deixar de ser, são as confusões que Zacarias se envolve no trânsito ainda tranquilo de São Paulo e com a vizinhança da vila onde mora. Mazzaropi sabia como poucos retratar as pessoas humildes e o local onde Zacarias foi morar é palco de saborosos momentos com o gentio que fica mais à janela de suas casas vigiando as vidas alheias que fazendo suas obrigações. Este é um dos melhores filmes de Mazzaropi e, embora os créditos digam ter sido filmado nos estúdios da Vera Cruz, tem como cenário a São Paulo daquele fim de década e que em seguida passaria por brutais transformações físicas e sociais. Mazzaropi brilha como dono do filme que é. Números musicais com Agnaldo Rayol, Lana Bitencourt e Mazzaropi ao lado do compositor Elpídio dos Santos. 8/10