O diretor-produtor Stanley
Kramer realizou inúmeros filmes abordando questões de cunho social e todos
altamente polêmicos. A crítica nem sempre foi generosa ao comentar seus
filmes e então Kramer decidiu produzir e dirigir uma comédia que deveria se
chamar “Algo Menos Sério”. O projeto tomou formas de superprodução e o título
final afirmava que o mundo é muito, muito, mas muito louco, isto para contar a
história simples de um grupo heterogêneo de pessoas, todas com uma única
intenção que é a de descobrir um tesouro de 350 mil dólares (hoje, corrigidos,
seriam três milhões de dólares) enterrado sob um ‘Big W’, em Santa Rosita, na
Califórnia. Paradoxalmente a comédia de Kramer parte de um dos piores defeitos
do ser humano, que é a ganância, mas quem tem tempo para pensar nisso quando o
filme faz rir durante toda a longa aventura do grupo? Kramer pode não ter
realizado a melhor de todas as comédias, mas remeteu o público a momentos engraçadíssimos
com o estelar elenco que reuniu e a ação continuada de tirar o fôlego. Spencer
Tracy é o chefe de polícia e praticamente todos os comediantes do cinema e da
TV daquele tempo tiveram participação maior ou simples pontas, como Buster
Keaton e Jerry Lewis. Exibida no cinema com mais de três horas de duração, as
cópias existentes chegam a reduzir esta delirante comédia em até uma hora. 9/10
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
PRIVILÉGIO (Privilege), 1967
É curioso este filme ter
causado tão grande impacto quando de seu lançamento, isto porque, a esse tempo,
astros do rock e anteriormente do rock’n’roll eram mais conhecidos pela
rebeldia que pelo conformismo expresso na maior parte da película. “Privilégio”
trata da manipulação de um cantor, o mais famoso de uma Inglaterra em tempos da
Swinging London, por parte daqueles que guiam sua carreira. O grande ídolo do
momento na Inglaterra é Steven Shorter (Paul Jones) e a Igreja e o Estado, em
conluio com seus empresários e ainda com os investidores, todos inescrupulosos,
usam-no para encaminhar os movimentos sociais que lhes interessam. O cantor tem
sua imagem violenta convertida em arauto da igreja, da paz e até mesmo adquirindo
milagrosos poderes de cura. Todos ganham com isso mas não contam que Shorter, apoiado
pela namorada Vanessa Ritchie (Jean Shrimpton), reflete e decide ser ele mesmo
e não mais a marionete na qual o transformaram. Isso significa o seu fim
artístico e em menos de um ano Shorter não passa de uma mera lembrança. O
diretor Peter Watkins consegue duas ou três sequências que impressionam
bastante mas o filme é, em seu conjunto, inconvincente. Paul Jones, que era vocalista
da banda Manfred Mann, e Jean Shrimpton, então a mais famosa modelo daquela
década, surpreendem por interpretarem bastante bem seus personagens. 6/10
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
IRMÃO SOL, IRMÃ LUA (Brother Sun, Sister Mon), 1972
Franco Zefirelli passou de
diretor de óperas a diretor de filmes levando magnificamente Shakespeare às
telas com “A Megera Domada” e “Romeu e Julieta”, especialmente este último que
alcançou enorme sucesso de público. Para seu terceiro filme Zefirelli decidiu
filmar a vida de Francisco de Assis, um dos santos mais admirados da Igreja Católica.
“Irmão Sol, Irmã Lua” resultou num filme desigual contendo alguns momentos admiráveis,
embalados por uma trilha sonora enternecedora (Donovan) e fotografia igualmente
muito bonita. A produção muito bem cuidada e os cenários, parte deles naturais
da Toscana, fruto de uma direção de arte primorosa, não são acompanhadas por
diálogos à altura e que por momentos se tornam enfadonhos de tão repetitivos na
intenção de situar o apego de Francisco (Graham Faulkner) aos pobres e doentes.
Os jovens atores principais não foram escolhas das mais felizes, tanto que
sequer fizeram carreira no cinema. Para compensar há a pequena mas ótima
participação de Alec Guinness como o Papa Inocêncio III e ainda a de Valentina
Cortese como a mãe de Francisco. À época chegou-se a dizer que o filme de
Zefirelli seria uma metáfora ao movimento hippie dos anos 60, mas católico
fervoroso (e homossexual) que era, o diretor quis mesmo fazer o filme
definitivo sobre a vida do santo. Impossível não se emocionar com a sublime
música de Donovan. – 7/10
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
A MORTE NUM BEIJO (Kiss me Deadly), 1955
Mickey Spillane é um dos
dez autores que mais venderam livros em todos os tempos nos USA. Isto mesmo
sendo considerado um escritor de histórias policiais de segunda categoria,
incomparavelmente inferior a Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O detetive
particular Mike Hammer, principal personagem de muitos livros de Spillane é cínico,
sádico, paranóico e era assim que agradava e até hoje agrada aos leitores. Mike
Hammer, interpretado por Ralph Meeker, foi levado ao cinema por Robert Aldrich em
1955, em “A Morte num Beijo”, já nos estertores do filme noir e mesmo assim se
tornou o mais influente filme do gênero. De Godard a Tarantino, muitos
diretores copiaram a singularidade de “Kiss me Deadly”, não apenas influente
como o mais brutal, assustador e inovador de todos os ‘noirs’. Desde as imagens
iniciais com uma mulher descalça correndo desesperada em uma rodovia até o
final apavorante, Aldrich exaspera o espectador através das muitas mortes e
torturas chocantes, algumas destas infligidas pelo próprio detetive durão.
Obviamente em preto e branco, filmado em grande parte nas ruas, tem, ao lado dos
clássicos gângsters, agentes interessados em uma mala com material radiativo e
ainda diversas mulheres fatais. “A Morte num Beijo” é um dos grandes clássicos
da década e do gênero e uma atração à parte são os carros esporte que Mike
Hammer utiliza (Jaguar, Corvette e um MG). 9/10.
domingo, 5 de janeiro de 2020
A DAMA DO LOTAÇÃO, 1978
Nelson Rodrigues, nosso
maior dramaturgo, também escreveu contos quando trabalhou na Última Hora
(1951/1960). Sua seção nesse jornal se chamava ‘A vida como ela é’ e um dos contos
publicados foi “A Dama do Lotação”, adaptado para o cinema por Neville d’Almeida
em 1978. O diretor foi acusado de plagiar “A Bela da Tarde”, de Luís Buñuel,
filme famoso lançado em 1967. Ocorre que “A Bela da Tarde” foi um romance
escrito por Joseph Kessel em 1928 e fica a dúvida: teria Nelson Rodrigues lido
esse livro e se inspirado para escrever a história da mulher casada que não
sentindo prazer com o marido passa a buscar satisfação com amantes desconhecidos
que encontra? A grande sacada de Nelson Rodrigues foi o fetiche de Solange
(Sonia Braga) procurar homens em transportes coletivos, a lotação do título. Os
homens que a levam a motel como o melhor amigo do marido e o próprio sogro não lhe
dão prazer como os anônimos passageiros dos ônibus. Muitos dos elementos comuns
à obra de Nelson Rodrigues, especialmente a hipocrisia da classe média e sua
visão das mulheres, estão presentes neste filme amoral que alcançou enorme sucesso.
Sonia Braga belíssima e esbanjando sensualidade têm, pelas mãos do diretor, as
mais excitantes sequências lúbricas que nosso cinema já mostrou. Memorável a canção-tema de Caetano Veloso. 7/10
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
O RENEGADO DO FORTE PETTICOAT (The Guns of Fort Petticoat), 1957
Mulheres, de um modo geral,
não apreciam faroestes. Quando perguntadas sobre isso algumas dizem que
assistiram “Butch Cassidy e Sundance Kid” e certamente atraídas não pela
historia dos dois foras-da-lei mas sim pela dupla de atores principais (Paul
Newman e Robert Redford). Mas há um western que certamente prenderá a atenção
do público feminino, isto porque as heroínas do filme são três dúzias de
mulheres que, lideradas por um tenente do Exército da União, defendem uma
missão onde se encontram escondidas dos Comanches. A ação se desenrola durante
a Guerra Civil norte-americana e guarda alguma semelhança com a defesa do Álamo
uma vez que o exército de saias parece destinado a ser exterminado pelos
guerreiros que sitiam a missão. No entanto ocorre uma surpresa, que não é a
clássica chegada da Cavalaria anunciada por um toque de corneta, e a maioria
das mulheres sobrevive. Além da ação constante que causa emoção, este faroeste
têm muitos momentos engraçados e, mulheres mostrando seu valor e, como não
poderia faltar, também romance. O herói da II Guerra Mundial Audie Murphy, ator
que como poucos atuou e manteve fãs no gênero, é o bravo desertor renegado do
título mas os destaques são mesmo seus ‘homens’, isto é o exército de saias. – 8/10
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
O DESTINO BATE À SUA PORTA (The Postman Always Rings Twice), 1981
A história de James M. Cain
já havia sido levada ao cinema por três vezes (na França em 1936, na Itália por
Luchino Visconti em 1943 e no ‘noir’ com Lana Turner em 1946). Mas parece que
Hollywood queria ser o mais fiel possível do livro de Cain, o que então seria
permitido e decidiu refilmá-lo em 1981 em uma mais esmerada produção fadada ao
sucesso. Porém nem Jack Nicholson (o astro do momento) ao lado de Jessica Lange
(a mais promissora estrela daqueles anos), nem a fotografia do sueco Sven
Nikvist ou o roteiro de David Mamet e as sequências de sexo explícito tão
ardentes quanto violentas foram suficientes para que este filme de Bob Rafelson
chegasse perto do fascinante clássico de 1946. Se há algo que torna esta versão
memorável são as excelentes atuações de Nicholson e de Jessica Lange,
especialmente nas referidas sequências de inacreditável eroticidade. No entanto
quando a trama, passada em plena depressão nos anos 30, deixa de ser sobre a lasciva
e avassaladora paixão entre a esposa insatisfeita, o sedutor aventureiro e o velho
marido alcoólatra resultando em assassinato, se torna mera história policial-tribunal
repleta de reviravoltas, o filme desanda. Não sem antes conter a mais bizarra e
desnecessária ‘participação especial’ do cinema com a presença de Anjelica
Huston. John Colicos é o marido grego vítima dos amantes Nicholson e Lange. – 6/10
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
VIDAS AMARGAS (East of Eden), 1955
John Steinbeck escreveu um
caudaloso romance sobre uma família da Califórnia que remete aos personagens
bíblicos Caim e Abel. Levado para o cinema por Elia Kazan o roteiro aborda
apenas um terço do livro de Steinbeck e com isso os conflitos entre o pai Adam (Raymond
Massey) e o filho Cal (James Dean) e entre Cal e seu irmão Aron (Richard Davalos)
prescindem de melhor estrutura. A figura da mãe Kate (Jo Van Fleet) é ainda mais
nebulosa enquanto Kazan foi mais feliz ao mostrar como Abra (Julie Harris) troca
Aron, o namorado certinho, pelo atormentado Cal. A angústia de Cal, bem como
sua inveja do irmão mais amado pelo pai, tudo prescinde de razão que os
trejeitos que Dean impõe ao personagem são insuficientes e em nada colaboram
com a essência da história. Porém este filme é cultuado e considerado para
muitos como a melhor interpretação de James Dean, ele que passa o filme todo
exercitando os maneirismos que em Marlon Brando soavam mais autênticos e que Dean
torna caricatos. Fazendo caretas, encostando-se às paredes, revirando os olhos
e correndo quando deveria andar, James Dean provoca comoção em seus admiradores
do mesmo modo que irrita quem vê isso como excessos interpretativos ensinados
no Actors Studio. “Vidas Amargas”, que tem a ótima Jo Van Fleet, é um drama que
Kazan tornou intenso e sombrio mas que termina com uma sequência piegas no
leito de morte de Adam. 6/10
sexta-feira, 22 de novembro de 2019
OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen), 1967
Este é um daqueles filmes
que, ao final, comportam a expressão: “Que filmaço!” Divertimento garantido com
150 minutos de duração que não pretende ser nenhum libelo contra a insanidade
das guerras mas que demonstra como homens são mandados para a morte em missões
pensadas pelos estrategistas de gabinete. A missão no caso é incendiar e matar
dezenas de oficiais alemães que se divertem num castelo na França ainda ocupada.
Doze homens são escolhidos para isso, a metade deles condenados à morte e os
demais a penas de 20 a 30 anos por tribunais militares. O que poderia ser uma
missão impossível torna-se exequível porque estarão sob o comando do Major Reisman
(Lee Marvin), truculento mas justo e corajoso oficial que exige a comutação das
penas do grupo todo. Algumas das sequências da preparação dos ‘doze encardidos’
são memoráveis e hilariantes e o clímax com a invasão do chateau é emocionante.
Lee Marvin na atuação de sua vida, soldado condecorado que foi na II GG, está
magnífico, irreverente com seus superiores e dirigindo blindado de muitas rodas.
O elenco fantástico tem um Charles Bronson excelente, Ernest Borgnine e George
Kennedy fazendo rir, Robert Ryan, Telly Savalas, Donald Sutherland, John Cassavetes
e muitos outros nomes, todos otimamente aproveitados pela direção inspirada de
Robert Aldrich em merecido enorme sucesso de bilheteria. Darci Fonseca – 9/10
terça-feira, 5 de novembro de 2019
CHOFER DE PRAÇA, 1959
Primeira produção da PAM,
produtora de Amácio Mazzaropi, desta vez contando as aventuras do caipira
Zacarias (Mazzaropi) dirigindo um carro de praça pelas ruas de São Paulo. Zacarias
(a quem chamam ‘por caria’) sai de sua cidadezinha com a esposa Augusta (Geny
Prado) para ficar mais perto do filho Raul (Celso Faria) e ajudá-lo a concluir
o curso de Medicina. Mas Raul é um filho ingrato e se envergonha da pouca
instrução, modos rudes e pobreza do pai, a quem explora tanto quanto a vontade
de ignorá-lo. A direção de Milton Amaral conduz bem o roteiro escrito por
Mazzaropi nesta comédia com tons dramáticos em que os melhores momentos, como
não poderia deixar de ser, são as confusões que Zacarias se envolve no trânsito
ainda tranquilo de São Paulo e com a vizinhança da vila onde mora. Mazzaropi
sabia como poucos retratar as pessoas humildes e o local onde Zacarias foi
morar é palco de saborosos momentos com o gentio que fica mais à janela de suas
casas vigiando as vidas alheias que fazendo suas obrigações. Este é um dos
melhores filmes de Mazzaropi e, embora os créditos digam ter sido filmado nos
estúdios da Vera Cruz, tem como cenário a São Paulo daquele fim de década e que
em seguida passaria por brutais transformações físicas e sociais. Mazzaropi
brilha como dono do filme que é. Números musicais com Agnaldo Rayol, Lana
Bitencourt e Mazzaropi ao lado do compositor Elpídio dos Santos. 8/10
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