sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

IRMÃO SOL, IRMÃ LUA (Brother Sun, Sister Mon), 1972


Franco Zefirelli passou de diretor de óperas a diretor de filmes levando magnificamente Shakespeare às telas com “A Megera Domada” e “Romeu e Julieta”, especialmente este último que alcançou enorme sucesso de público. Para seu terceiro filme Zefirelli decidiu filmar a vida de Francisco de Assis, um dos santos mais admirados da Igreja Católica. “Irmão Sol, Irmã Lua” resultou num filme desigual contendo alguns momentos admiráveis, embalados por uma trilha sonora enternecedora (Donovan) e fotografia igualmente muito bonita. A produção muito bem cuidada e os cenários, parte deles naturais da Toscana, fruto de uma direção de arte primorosa, não são acompanhadas por diálogos à altura e que por momentos se tornam enfadonhos de tão repetitivos na intenção de situar o apego de Francisco (Graham Faulkner) aos pobres e doentes. Os jovens atores principais não foram escolhas das mais felizes, tanto que sequer fizeram carreira no cinema. Para compensar há a pequena mas ótima participação de Alec Guinness como o Papa Inocêncio III e ainda a de Valentina Cortese como a mãe de Francisco. À época chegou-se a dizer que o filme de Zefirelli seria uma metáfora ao movimento hippie dos anos 60, mas católico fervoroso (e homossexual) que era, o diretor quis mesmo fazer o filme definitivo sobre a vida do santo. Impossível não se emocionar com a sublime música de Donovan. – 7/10




segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A MORTE NUM BEIJO (Kiss me Deadly), 1955


Mickey Spillane é um dos dez autores que mais venderam livros em todos os tempos nos USA. Isto mesmo sendo considerado um escritor de histórias policiais de segunda categoria, incomparavelmente inferior a Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O detetive particular Mike Hammer, principal personagem de muitos livros de Spillane é cínico, sádico, paranóico e era assim que agradava e até hoje agrada aos leitores. Mike Hammer, interpretado por Ralph Meeker, foi levado ao cinema por Robert Aldrich em 1955, em “A Morte num Beijo”, já nos estertores do filme noir e mesmo assim se tornou o mais influente filme do gênero. De Godard a Tarantino, muitos diretores copiaram a singularidade de “Kiss me Deadly”, não apenas influente como o mais brutal, assustador e inovador de todos os ‘noirs’. Desde as imagens iniciais com uma mulher descalça correndo desesperada em uma rodovia até o final apavorante, Aldrich exaspera o espectador através das muitas mortes e torturas chocantes, algumas destas infligidas pelo próprio detetive durão. Obviamente em preto e branco, filmado em grande parte nas ruas, tem, ao lado dos clássicos gângsters, agentes interessados em uma mala com material radiativo e ainda diversas mulheres fatais. “A Morte num Beijo” é um dos grandes clássicos da década e do gênero e uma atração à parte são os carros esporte que Mike Hammer utiliza (Jaguar, Corvette e um MG). 9/10.



domingo, 5 de janeiro de 2020

A DAMA DO LOTAÇÃO, 1978


Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, também escreveu contos quando trabalhou na Última Hora (1951/1960). Sua seção nesse jornal se chamava ‘A vida como ela é’ e um dos contos publicados foi “A Dama do Lotação”, adaptado para o cinema por Neville d’Almeida em 1978. O diretor foi acusado de plagiar “A Bela da Tarde”, de Luís Buñuel, filme famoso lançado em 1967. Ocorre que “A Bela da Tarde” foi um romance escrito por Joseph Kessel em 1928 e fica a dúvida: teria Nelson Rodrigues lido esse livro e se inspirado para escrever a história da mulher casada que não sentindo prazer com o marido passa a buscar satisfação com amantes desconhecidos que encontra? A grande sacada de Nelson Rodrigues foi o fetiche de Solange (Sonia Braga) procurar homens em transportes coletivos, a lotação do título. Os homens que a levam a motel como o melhor amigo do marido e o próprio sogro não lhe dão prazer como os anônimos passageiros dos ônibus. Muitos dos elementos comuns à obra de Nelson Rodrigues, especialmente a hipocrisia da classe média e sua visão das mulheres, estão presentes neste filme amoral que alcançou enorme sucesso. Sonia Braga belíssima e esbanjando sensualidade têm, pelas mãos do diretor, as mais excitantes sequências lúbricas que nosso cinema já mostrou. Memorável a canção-tema de Caetano Veloso. 7/10



sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O RENEGADO DO FORTE PETTICOAT (The Guns of Fort Petticoat), 1957


Mulheres, de um modo geral, não apreciam faroestes. Quando perguntadas sobre isso algumas dizem que assistiram “Butch Cassidy e Sundance Kid” e certamente atraídas não pela historia dos dois foras-da-lei mas sim pela dupla de atores principais (Paul Newman e Robert Redford). Mas há um western que certamente prenderá a atenção do público feminino, isto porque as heroínas do filme são três dúzias de mulheres que, lideradas por um tenente do Exército da União, defendem uma missão onde se encontram escondidas dos Comanches. A ação se desenrola durante a Guerra Civil norte-americana e guarda alguma semelhança com a defesa do Álamo uma vez que o exército de saias parece destinado a ser exterminado pelos guerreiros que sitiam a missão. No entanto ocorre uma surpresa, que não é a clássica chegada da Cavalaria anunciada por um toque de corneta, e a maioria das mulheres sobrevive. Além da ação constante que causa emoção, este faroeste têm muitos momentos engraçados e, mulheres mostrando seu valor e, como não poderia faltar, também romance. O herói da II Guerra Mundial Audie Murphy, ator que como poucos atuou e manteve fãs no gênero, é o bravo desertor renegado do título mas os destaques são mesmo seus ‘homens’, isto é o exército de saias. – 8/10


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O DESTINO BATE À SUA PORTA (The Postman Always Rings Twice), 1981


A história de James M. Cain já havia sido levada ao cinema por três vezes (na França em 1936, na Itália por Luchino Visconti em 1943 e no ‘noir’ com Lana Turner em 1946). Mas parece que Hollywood queria ser o mais fiel possível do livro de Cain, o que então seria permitido e decidiu refilmá-lo em 1981 em uma mais esmerada produção fadada ao sucesso. Porém nem Jack Nicholson (o astro do momento) ao lado de Jessica Lange (a mais promissora estrela daqueles anos), nem a fotografia do sueco Sven Nikvist ou o roteiro de David Mamet e as sequências de sexo explícito tão ardentes quanto violentas foram suficientes para que este filme de Bob Rafelson chegasse perto do fascinante clássico de 1946. Se há algo que torna esta versão memorável são as excelentes atuações de Nicholson e de Jessica Lange, especialmente nas referidas sequências de inacreditável eroticidade. No entanto quando a trama, passada em plena depressão nos anos 30, deixa de ser sobre a lasciva e avassaladora paixão entre a esposa insatisfeita, o sedutor aventureiro e o velho marido alcoólatra resultando em assassinato, se torna mera história policial-tribunal repleta de reviravoltas, o filme desanda. Não sem antes conter a mais bizarra e desnecessária ‘participação especial’ do cinema com a presença de Anjelica Huston. John Colicos é o marido grego vítima dos amantes Nicholson e Lange.  – 6/10



quinta-feira, 28 de novembro de 2019

VIDAS AMARGAS (East of Eden), 1955


John Steinbeck escreveu um caudaloso romance sobre uma família da Califórnia que remete aos personagens bíblicos Caim e Abel. Levado para o cinema por Elia Kazan o roteiro aborda apenas um terço do livro de Steinbeck e com isso os conflitos entre o pai Adam (Raymond Massey) e o filho Cal (James Dean) e entre Cal e seu irmão Aron (Richard Davalos) prescindem de melhor estrutura. A figura da mãe Kate (Jo Van Fleet) é ainda mais nebulosa enquanto Kazan foi mais feliz ao mostrar como Abra (Julie Harris) troca Aron, o namorado certinho, pelo atormentado Cal. A angústia de Cal, bem como sua inveja do irmão mais amado pelo pai, tudo prescinde de razão que os trejeitos que Dean impõe ao personagem são insuficientes e em nada colaboram com a essência da história. Porém este filme é cultuado e considerado para muitos como a melhor interpretação de James Dean, ele que passa o filme todo exercitando os maneirismos que em Marlon Brando soavam mais autênticos e que Dean torna caricatos. Fazendo caretas, encostando-se às paredes, revirando os olhos e correndo quando deveria andar, James Dean provoca comoção em seus admiradores do mesmo modo que irrita quem vê isso como excessos interpretativos ensinados no Actors Studio. “Vidas Amargas”, que tem a ótima Jo Van Fleet, é um drama que Kazan tornou intenso e sombrio mas que termina com uma sequência piegas no leito de morte de Adam. 6/10




sexta-feira, 22 de novembro de 2019

OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen), 1967


Este é um daqueles filmes que, ao final, comportam a expressão: “Que filmaço!” Divertimento garantido com 150 minutos de duração que não pretende ser nenhum libelo contra a insanidade das guerras mas que demonstra como homens são mandados para a morte em missões pensadas pelos estrategistas de gabinete. A missão no caso é incendiar e matar dezenas de oficiais alemães que se divertem num castelo na França ainda ocupada. Doze homens são escolhidos para isso, a metade deles condenados à morte e os demais a penas de 20 a 30 anos por tribunais militares. O que poderia ser uma missão impossível torna-se exequível porque estarão sob o comando do Major Reisman (Lee Marvin), truculento mas justo e corajoso oficial que exige a comutação das penas do grupo todo. Algumas das sequências da preparação dos ‘doze encardidos’ são memoráveis e hilariantes e o clímax com a invasão do chateau é emocionante. Lee Marvin na atuação de sua vida, soldado condecorado que foi na II GG, está magnífico, irreverente com seus superiores e dirigindo blindado de muitas rodas. O elenco fantástico tem um Charles Bronson excelente, Ernest Borgnine e George Kennedy fazendo rir, Robert Ryan, Telly Savalas, Donald Sutherland, John Cassavetes e muitos outros nomes, todos otimamente aproveitados pela direção inspirada de Robert Aldrich em merecido enorme sucesso de bilheteria. Darci Fonseca – 9/10





terça-feira, 5 de novembro de 2019

CHOFER DE PRAÇA, 1959


Primeira produção da PAM, produtora de Amácio Mazzaropi, desta vez contando as aventuras do caipira Zacarias (Mazzaropi) dirigindo um carro de praça pelas ruas de São Paulo. Zacarias (a quem chamam ‘por caria’) sai de sua cidadezinha com a esposa Augusta (Geny Prado) para ficar mais perto do filho Raul (Celso Faria) e ajudá-lo a concluir o curso de Medicina. Mas Raul é um filho ingrato e se envergonha da pouca instrução, modos rudes e pobreza do pai, a quem explora tanto quanto a vontade de ignorá-lo. A direção de Milton Amaral conduz bem o roteiro escrito por Mazzaropi nesta comédia com tons dramáticos em que os melhores momentos, como não poderia deixar de ser, são as confusões que Zacarias se envolve no trânsito ainda tranquilo de São Paulo e com a vizinhança da vila onde mora. Mazzaropi sabia como poucos retratar as pessoas humildes e o local onde Zacarias foi morar é palco de saborosos momentos com o gentio que fica mais à janela de suas casas vigiando as vidas alheias que fazendo suas obrigações. Este é um dos melhores filmes de Mazzaropi e, embora os créditos digam ter sido filmado nos estúdios da Vera Cruz, tem como cenário a São Paulo daquele fim de década e que em seguida passaria por brutais transformações físicas e sociais. Mazzaropi brilha como dono do filme que é. Números musicais com Agnaldo Rayol, Lana Bitencourt e Mazzaropi ao lado do compositor Elpídio dos Santos. 8/10





domingo, 27 de outubro de 2019

O INCIDENTE (The Incident), 1967


Esta modesta produção dirigida por Larry Peerce é uma apavorante viagem filmada quase inteiramente dentro de um vagão do metrô de Nova York. Já de madrugada 14 passageiros são aterrorizados por dois marginais (Tony Musante e Martin Sheen) que se divertem ameaçando-os e agredindo-os, impedindo a saída do vagão. Ninguém escapa da sanha dos criminosos e o líder (Musante) usa de pervertida psicologia para, um a um, desmoralizar a todos. Entre as vítimas estão um homossexual,um viciado, casais negros, brancos e idosos e até dois jovens soldados do Exército. A selvageria da dupla instala o pavor e faz com que os passageiros revelem seus problemas pessoais e verdadeiras personalidades. O diretor Peerce dirige com habilidade fazendo crescer minuto a minuto o desespero não só dos passageiros mas também do espectador numa tensão que explode com um final angustiante e catárquico. O elenco composto por jovens atores praticamente desconhecidos como Beau Bridges e Musante, além de Martin Sheen e Donna Mills em seus primeiros filmes. São coadjuvados por veteranos com participações marcantes, especialmente as de Jan Sterling, Gary Merrill e do negro Brock Peters.  Drama violento que pode não agradar a todos mas que é quase perfeito. O ‘quase’ fica por conta da facilidade com que os dois delinquentes são abatidos ao final. 9/10 - Cópia gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Sebá Santos.




quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A NOIVA ESTAVA DE PRETO (La Mariée Était em Noir), 1968


François Truffaut era tão apaixonado pelo cinema de Alfred Hitchcock que, depois de consagrado, decidiu fazer filmes para homenagear o Mestre do Suspense. Este é seu filme mais hitchcockiano mas está longe de ser uma homenagem lisonjeira. No dia de seu casamento Julie Kohler (Jeanne Moreau) vê seu marido ser morto por um tiro disparado acidentalmente em uma brincadeira entre cinco homens. Eles desaparecem sem deixar vestígios, mas Julie descobre quem eles são e onde estão, assassinando-os cada um de modo diferente. Essa vingança fria e racional é o problema maior do filme que não explica como a viúva chega aos cinco homens. À parte o roteiro incoerente, pouca coisa funciona a contento e o filme de suspense simplesmente não tem suspense. O final que pretende ser surpreendente é totalmente previsível. Truffaut só consegue agradar quando cria um personagem (um alter-ego seu) que se apaixona por sua modelo (a própria Jeanne). La Moreau, uma atriz minimalista em suas expressões quase sempre ressentidas e pessimistas, carrega o filme com seu charme irresistível, especialmente quando três de suas vítimas descobrem seus encantos. O elenco de coadjuvantes tem nomes conhecidos que atuam sem maior brilho.  Bernard Herrmann, compositor das trilhas de Hitchcock, cuidou da música e Raoul Coutard da cinematografia. 5/10