sexta-feira, 7 de junho de 2019

UM HOMEM E UMA MULHER (Um Homme et Une Femme), 1966


Enquanto os cineastas da Nouvelle Vague tentavam revolucionar a linguagem cinematográfica nos anos 60, Claude Lelouch, um francês de 29 anos, conquistou público e crítica com um filme originalíssimo. Mesclando imagens em cores com outras em preto e branco e mesmo em sépia, “Um Homem e Uma Mulher” narra a história quase banal de um viúvo (Jean-Louis Trintgnant) e uma viúva (Anouk Aimeé) que se conhecem e se apaixonam. Atrapalha um pouco o romance a lembrança do marido dela (Pierre Barouh), o que não impede o esperado happy-end. Não só a trilha sonora de Francis Lai torna o filme encantador, mas também o uso abundante de imagens que mais parecem clips comerciais. Conta-se não foi um recurso estilístico o uso de filme em preto e branco, mas sim falta de dinheiro para realizá-lo inteiramente em cores. Se isso é verdade a Ford ficou em débito com Claude Lelouch pois Trintignant guia dois Mustangs em grande parte do filme e ainda pilota um Ford GT40. Para aficionados do automobilismo a película é um ‘must’, inclusive mostrando uma largada em Le Mans no estilo antigo. Brasileiros adoraram ver Pierre Barouh cantando nosso “Samba da Bênção” (em meio a outras belíssimas canções) neste filme que permaneceu quase um ano em cartaz em São Paulo e arrebatou prêmios pelo mundo inteiro.  Um dos clássicos absolutos do cinema romântico. 9/10




terça-feira, 14 de maio de 2019

UM PIJAMA PARA DOIS (The Pajama Game), 1957


Enorme sucesso na Broadway, onde foi encenado 1.063 vezes nos dois anos e meio em que esteve em cartaz, este musical sobre uma greve numa fábrica de pijamas tinha o destino certo que era virar filme. Praticamente todo elenco teatral foi contratado pela Warner, menos Janis Paige que interpretava Babe Williams, a líder operária que reivindicava 7,5 centavos de dólar de reajuste no salário, quantia negada pelo patrão. Janis Paige não era um nome ‘forte’ para as bilheterias e Doris Day foi chamada, quase uma estranha no ninho no elenco importado da Broadway. Com seu talento Doris criou uma inesquecível ‘Babe Williams’ num filme onde romance, humor, dança e muita música fizeram de “Um Pijama para Dois” um dos melhores musicais de uma década repleta de grandes musicais. E não poderia ser diferente pois Bob Fosse respondeu pela coreografia e Jerome Robbins (não creditado) atuou na direção ao lado da dupla de diretores Stanley Donen-George Abbott. Entre as canções memoráveis (todas de Richard Adler e Jerry Ross) destaque para “Hey There”, “Small talk” e “Hernando’s Hideway”, esta o ponto alto da coreografia de Fosse e dançada por Carol Haney. John Raitt, que faz o par romântico com Doris, é dono de boa voz mas fraco como ator. Carol Haney histriônica, mas como dança! E Doris Day esplêndida, linda, cativante e maravilhosa em “There Once a Man” e comovente cantando “Hey There’. 9/10




quarta-feira, 8 de maio de 2019

BONECA DE CARNE (Baby Doll), 1956


Condenado pela organização católica Legião da Decência, nos Estados Unidos, recebendo de críticos adjetivos como ‘indecente’ e ‘sórdido’ e sendo proibido em alguns países, nem mesmo provocando este estardalhaço o filme de Elia Kazan se transformou em sucesso. Baseado em texto de Tennessee Williams, que também adaptou para o cinema, “Boneca de Carne” narra uma história passada no Delta do Mississippi com disputa entre dois homens que processam algodão. O maduro Archie Lee (Karl Malden) é casado com a jovem Baby Doll (Carroll Baker), a quem devido a um trato feito com o pai da moça, só poderá possuí-la quando ela completar 20 anos. Archie Lee ateia fogo no armazém de algodão de Silva Vacarro (Eli Wallach) que se vinga envolvendo-se com Baby Doll para desespero do marido traído que, armado, busca vingança. A dramaticidade da história se transforma em comédia de humor negro com momentos de intensa lubricidade provocados pela impudica e libidinosa Baby Doll. Fica a impressão que o filme poderia ser muito melhor fossem outros os atores (Marlon Brando era a escolha inicial para Archie Lee). Estreia no cinema de Eli Wallach que assim como Karl Malden não convencem como os dois litigantes, ao contrário de Carroll Baker que esbanja sensualidade mesmo mostrando quase nada de seu corpo. Típico filme que merecia ser refeito sem as amarras do código de moralidade então vigentes em Hollywood. 7/10




domingo, 5 de maio de 2019

THELMA E LOUISE (Thelma & Louise), 1991


Houve quem não gostasse deste filme porque as duas protagonistas somente conseguem sair das situações difíceis com revólver à mão. Ora, a força bruta masculina que submete psicológica e fisicamente as mulheres seria, por acaso, menos violenta? Thelma (Susan Sarandon) e Louise (Geena Davis) cansadas de serem tratadas com insignificância por seus namorado e marido, respectivamente, decidem viajar num final de semana com a pretensa ideia de encontrar, mesmo efemeramente, a liberdade. O Ford Thunderbird conversível lhes dá a falsa impressão de emancipação do mundo machista, mas este, nem assim lhes dá trégua. Durante a jornada são vítimas de estupro, ludibriadas, insultadas e inesperadamente reagem com fúria. A viagem revela-se fatídica para elas que, num dos finais mais poéticos do cinema, desistem da vida num voo para a morte. ‘Road movies’ sempre tiveram homens à procura da liberdade e “Thelma e Louise” não só rompe com esse padrão como é o mais melancólico e ao mesmo tempo o mais encantador dos filmes de estrada. Isto mesmo lembrando de “Cada Um Vive Como Quer”, este com a dose de amargura que o filme de Ridley Scott mescla com momentos divertidos em sua trágica concepção. As brilhantes interpretações de Susan Sarandon e Geena Davis são magnificamente completadas pela música de Hans Zimmer e pela primorosa cinematografia. 10/10





terça-feira, 30 de abril de 2019

CHOREI POR VOCÊ (The Joker is Wild), 1957


O cantor e comediante Joe E. Lewis era um dos principais entertainers dos anos 20, quando gângsters, a mando de um dono de night-club, o surraram violentamente e quase puseram fim à sua vida artística. Lewis conseguiu sobreviver e com ajudas providenciais voltou aos palcos. Uma das pessoas que o ajudaram foi uma socialite que o amava e com quem ele nunca quis se casar, casando-se mais tarde com uma corista. Mas Lewis gostava mesmo era de uma garrafa de scotch, o que o levou a perder família, amigos e ver sua carreira definhar. A vida do entertainer foi biografada e levada ao cinema com Frank Sinatra como Lewis, Jeanne Crain como a ricaça que o ajudou e Mitsi Gaynor como sua sofrida esposa. Muito da vida de Joe E. Lewis se confunde com a primeira metade da vida do próprio Sinatra e talvez por isso ele tem uma esplêndida interpretação. Além do farto e engraçadíssimo material para stand-ups que faz Sinatra brilhar, há uma dúzia de canções que ‘The Voice’ canta com arranjos de Nelson Riddle que também dirige a orquestra que acompanha o cantor. Entre os números antológicos estão “I Cried for You”, “Naturally” e a maravilhosa “All the Way”, que ganhou o Oscar de Melhor Canção. Sinatra canta “All the Way” três vezes e é irresistível a versão pessimista. Imperdível pela música e por Sinatra em seu auge como cantor e ator. No elenco ainda Eddie Albert e Jackie Coogan - 8/10




segunda-feira, 29 de abril de 2019

CRY BABY (Cry Baby), 1990


John Waters tem muitos admiradores e seus filmes “Pink Flamingos” e “Polyester”, ambos estrelados pelo performer Divine, se tornaram cults mesmo rotulados de escatológicos. Com “Hairspray”, também com Divine, John Waters amenizou sua irreverência e conquistou um público ainda maior. Em seguida ele dirigiu “Cry Baby”, na mesma linha do anterior, ou seja, ambientado (sempre em Baltimore) e nos tempos ingênuos do rock’n’roll. “Cry Baby” (Johnny Depp) é um jovem transviado por quem Allison (Amy Locane) se apaixona. Ela pertence ao high society da cidade e sua vigilante tia (Polly Bergen) faz o possível para impedir o romance. Tudo que já se viu em filmes do gênero, corridas mortais com automóveis a la “Juventude Transviada” e Cry Baby preso como Elvis em “Prisioneiro do Rock”, além de brigas entre jovens, acontece ao som de muitos rocks e baladas românticas. O final é o mais água com açúcar que Waters pode conceber e a sátira é divertida, sem ser brilhante. Há poucos rostos bonitos como os de Sandra Dee e Troy Donahue (que tem pequena participação) pois Waters prefere personagens bizarros interpretados por gente como Iggy Pop, Willem Dafoe, Susan Tyrrell e a inacreditável ‘Cara-de-Machado’ Kim McGuire. Joe Dallesandro interpreta um... pastor. Johnny Depp ainda não era o astro que se tornou e quem rouba o filme todo é a maravilhosa Polly Bergen, muito bonita aos 60 anos. 7/10



quinta-feira, 25 de abril de 2019

JOANA D’ARC (Joan of Arc), 1948


A vida de Joana D’Arc já havia sido levada às telas inúmeras vezes quando Ingrid Bergman se associou ao produtor Walter Wanger e ao diretor Victor Fleming para produzir esta superprodução. Resultou num filme de 145 minutos que não obteve o sucesso esperado, tendo então sua duração reduzida para 100 minutos, que é a cópia mais conhecida. Conta como a jovem camponesa teve papel preponderante na luta pelo Reino da França, durante a Guerra dos 100 Anos. Desde adolescente Joana (Ingrid Bergman) ouve vozes que mais tarde lhe indicam que deve ajudar o Delfim (José Ferrer) na disputa pela coroa francesa contra os ingleses. Joana lidera o exército francês transformando iminente derrota em vitória sobre os ingleses. A Igreja Católica alia-se aos britânicos e Joana é denunciada como herege e por prática de bruxaria, sendo condenada à fogueira. Esta bem produzida versão tem seus pontos altos na fotografia que contou com a colaboração do extraordinário Winton C. Hoch, recebendo o Oscar de Cinematografia (ganhou também o de Costumes) e na luminosa interpretação de Ingrid. Aos 33 anos a atriz sueca interpreta Joana que tinha apenas 19, mas envolve de tal forma o espectador que ele nem se atenta a esse detalhe. José Ferrer é o afetado e inescrupuloso Delfim num elenco com muitos atores e destaque ainda para Ward Bond. Quem quiser ver não só a história, mas também a alma da heroína francesa deve assistir “O Martírio de Joana d’Arc”, de Dreyer. 7/10




terça-feira, 23 de abril de 2019

ENTRE DOIS JURAMENTOS (Two Flags West), 1950


A Guerra Civil norte-americana foi pano de fundo para pelo menos uma centena de westerns e este dirigido por Robert Wise relata uma situação inusitada que seria abordada anos mais tarde por Sam Peckinpah no malfadado “Juramento de Vingança” (Major Dundee). Ambos tratam de confederados feitos prisioneiros de guerra e que, segundo um decreto de Abraham Lincoln, seriam anistiados caso se incorporassem ao Exército da União. É o que acontece com um pelotão liderado pelo sulista Coronel Tucker (Joseph Cotten) que presta juramento de lutar ao lado dos ianques. Os adversários agora são índios, tão odiados pelo Major Kenniston (Jeff Chandler), nortista que comanda o Forte que serve como prisão, quantos os próprios confederados. O objetivo dos homens de Tucker não é outro senão escapar, mas demonstrando altruísmo e coragem renunciam à fuga para lutar pela União. Para complicar ainda mais as coisas no Forte, o Major Kenniston é apaixonado por sua cunhada viúva (Linda Darnell). Na linha de “Sangue de Heróis” (Fort Apache), de John Ford, os índios são vistos de forma simpática neste muito bom faroeste de Wise. As sequências do cerco dos índios ao forte são excelentes. Sem maior esforço Joseph Cotten é o melhor do elenco que conta ainda com o monolítico Jeff Chandler em início de carreira, a bela (e apenas isso) Linda Darnell e Cornel Wilde. 8/10





quinta-feira, 11 de abril de 2019

EM CADA CORAÇÃO UM PECADO (Kings Row), 1942


Bem antes de “A Caldeira do Diabo” e de “Veludo Azul”, Hollywood já havia mostrado que as aparências enganavam nas bucólicas cidadezinhas do interior dos Estados Unidos. A pequena e tranquila Kings Row, por volta de 1900, escondia preconceitos, assassinatos e a mais terrível forma de sadismo que chegara às telas, além de demência hereditária. Tudo isso estava no best-seller de Henry Bellamann publicado em 1940 e que movimentou os bastidores do cinema pois os personagens interessavam aos mais famosos artistas de então. Ronald Reagan ficou com o papel de Drake McHugh, desde criança envolvido com Randy Monaghan (Ann Sheridan), enquanto o amigo Parris Mitchell (Robert Cummings) se relaciona com Cassandra Tower (Betty Field). Através dos anos o destino reservará tragédias para alguns deles neste melodrama intenso que por momentos parece resvalar no novelesco, mas que mantém a dignidade. Para isso muito contribui as magníficas interpretações de Reagan, Ann Sheridan e Betty Field. Sem falar no elenco de apoio formado por atores notáveis como Claude Rains, Judith Anderson, Charles Coburn e Maria Ouspenskaya. Brilhantes também a fotografia de James Wong Howe e a música de Eich Wolfgang Korngold. Direção de Sam Wood. Obrigatório esse que foi o mais sóbrio dos filmes da Warner Bros. nos tempos da II Grande Guerra. 9/10





sexta-feira, 5 de abril de 2019

EU, ELA E A OUTRA (Move Over, Darling), 1963


Doris Day foi a artista (eles e elas) campeã de bilheterias por quatro anos e essa série teve início com “Confidências à Meia-Noite”, obra-prima da comédia sofisticada. Mesmo emplacando sucesso atrás de sucesso, Doris não conseguia repetir a qualidade de “Confidências...”, dirigida por Michael Gordon. Esse mesmo diretor foi chamado para filmar o malfadado projeto que teria sido o último filme de Marilyn Monroe (com Dean Martin e Cyd Charisse), agora com Doris como a esposa dada como morta há cinco anos e cujo marido (James Garner) se casa novamente (com Polly Bergen). A falecida reaparece e daí para frente é uma sucessão de deliciosas confusões que terminam com casamento e certidão de morte anulados e o casal original reunido com as duas filhas. O roteiro tem grandes momentos cômicos, os melhores deles proporcionados pelos veteranos Edgar Buchanan como um juiz irritadiço e Thelma Ritter como a sogra sensata. Não faltam piadas de humor negro, com a Psicanálise e com Adão e Eva pois a linda Doris passa cinco anos numa ilha deserta com o atlético Chuck Connors e... nada acontece. Doris Day canta apenas duas canções nada memoráveis assim como seu desempenho que não chega a entusiasmar. James Garner é simpático mas não é Rock Hudson e a bonita e talentosa Polly Bergen (a outra) merecia melhores sequências. Refilmagem de “Minha Esposa Favorita”, de 1940. 8/10