quinta-feira, 23 de abril de 2020

SONHOS DE UM SEDUTOR (Play it Again, Sam), 1972


Woody Allen esta comédia para o teatro e depois ele mesmo roteirizou para o cinema e onde a protagonizou. Curiosamente Allen deixou de dirigir este filme que iria ser determinante em sua carreira pois ele nunca mais abandonaria o tipo neurótico e apaixonado por cinema que criou. Quem dirigiu foi Herbert Ross mas toda a comédia é puro woodyalleniana contando como Allan Felix (Woody Allen), um crítico de cinema que já assistiu dezenas de vezes “Casablanca”, imagina a presença de Humphrey Bogart (Jerry Lacy) para ajudá-lo a resolver sua intrincada vida amorosa. Felix foi abandonado pela mulher (Susan Anspach) e se envolve com Linda (Diane Keaton), a esposa de seu melhor amigo (Tony Roberts), tudo sob medida para que ele, num final que parodia seu filme preferido, possa dizer a Linda as frases que Bogart/Dick disse a Ingrid Bergman/Ilsa ao vê-la partir de Casablanca. Woody e Allen que então viviam juntos repetiram os personagens que criaram na Broadway e fazem rir o tempo todo, ainda que Woody seja mais engraçado com o que fale que tentando de modo histriônico a comicidade física. O ‘Bogart’ deste filme nem sempre tem o ‘timing’ e as falas ideais mas nada disso impedem que “Sonhos de um Sedutor” seja a melhor das comédias nostálgicas. Imperdível para os fãs de “Casablanca’, para os fãs de cinema em geral e para os fãs ou não de Allen. 9/10




quinta-feira, 16 de abril de 2020

LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA, 1971


Não fosse chamado de ‘Cinema Novo’, este movimento bem poderia ser denominado ‘Cinema do Oba-Oba’. Com uma ideia nem sempre boa na cabeça, uma câmera na mão, alguns poucos atores e muitos amigos e... vamos fazer um filme. Rubens Fonseca havia iniciado sua brilhante trajetória como contista e escritor e ‘Lúcia McCartney’ era um de seus contos mais conhecidos. Foi esse conto que David Neves decidiu filmar com roteiro do próprio autor. Lúcia McCartney (Adriana Prieto) é uma garota de programa que, ao som de canções dos Beatles conhece um industrial paulista por quem se apaixona loucamente. Ele a deixa e o conto é emendado com outro chamado ‘A História de F.A.’ no qual um advogado (Paulo Villaça) resgata uma prostituta a pedido de um diplomata. O problema é que nada funciona na história confusa e insossa. Para ajudar Albino Pinheiro, que foi muita coisa na vida, menos ator, e inúmeros convidados com participações inoportunas completam o filme que não perde uma sequência sequer para lembrar que o diretor é fã de Jean-Luc Godard. Adriana Prieto, falecida aos 24 anos é bonitinha e só e Paulo Villaça é a melhor coisa da película, ainda que repetindo o tipo característico de cafajeste que sempre levou à tela. A cena de luta é risível e tampe ou ouvidos para partes da trilha musical. 3/10



quinta-feira, 9 de abril de 2020

AS DIABÓLICAS (Les Diaboliques), 1955


Alfred Hitchcock bem queria filmar o livro “Celle qui n’était plus”, mas Henri-Georges Clouzot chegou antes e realizou o suspense mais hitchcockiano do cinema. Em quase duas horas que não permitem ao espectador respirar direito, Clouzot conta como Christina (Vera Clouzot) e Nicole (Simone Signoret), duas professoras amigas, decidem assassinar Michel (Paul Meurisse), o violento e despótico marido de Christina. Após consumar o assassinato, uma série de situações estranhas passam a ocorrer o que leva Christina ao desespero até que ela não mais suporte o medo e a culpa. Como o próprio Clouzot pede ao final de “As Diabólicas”, mais não se pode dizer sobre o desfecho deste filme, desfecho que é decepcionante e incondizente com o admirável desenvolvimento ao longo do thriller. Poucas vezes a morbidez atingiu tamanho grau e é uma pena que o roteiro dissipe o lesbianismo que existe no livro e é levemente insinuado no filme. Afinal era 1955 ainda. Simone Signoret é magnífica e Paul Meurisse excelente, enquanto a atriz brasileira Vera Clouzot quase coloca a perder o trabalho e dedicação do esposo-diretor que se esforça ao extremo para ressaltar sua participação. Sucesso de público e crítica, este é um dos grandes filmes de suspense que o Mestre Alfred nunca cansava de elogiar e que foi muito imitado. Hollywood fez uma versão com Sharon Stone. 9/10




sexta-feira, 3 de abril de 2020

KING KONG (King Kong), 1933


Nos tempos em que o cinema se especializou em assustar o espectador com criaturas, vampiros e monstros diversos, um filme conquistou o público, a crítica e até hoje se conserva como o clássico dos clássicos do gênero. Ele é “King Kong” que, mesmo com todas as imitações e refilmagens caríssimas que se seguiram e a moderna tecnologia cinematográfica conserva-se insuperável. Merian C. Cooper e Ernest B. Shoedsack co-dirigiram e os efeitos especiais da equipe de Willis O’Brien permanecem surpreendentes ao contar como um gorila gigantesco é aprisionado nas Índias Orientais e levado por um delirante produtor de filmes para Nova York. Lá seria exibido como a ‘8.ª Maravilha do Mundo’, mas acontece que o monstro se apaixona por uma jovem atriz, se enraivece com o ambiente à sua volta, leva a moça consigo e com ela escala o Empire States Building. Do ponto mais alto do edifício o monstro é morto não sem antes demonstrar a afeição pela bela. A imagem da sequência final, no recém-inaugurado Empire States é uma das mais marcantes do século e da história do cinema neste filme que emociona geração após geração. Lançado no pico da recessão, “King Kong” foi sucesso absoluto nos cinemas de todo o mundo. Fay Wray, Robert Armstrong e Bruce Cabot são os intérpretes principais coadjuvando o cativante gorila. A trilha musical de Max Steiner é simplesmente magistral. 10/10



terça-feira, 31 de março de 2020

A MORTA-VIVA (I Walked with a Zombie), 1943


Produzido por Val Lewton para a série ‘horror’ da RKO esta película é uma das obras-primas do ‘filme B’. O que caracteriza um ‘filme B’ é o seu pequeno orçamento e limites artísticos, mas alguns diretores, como o caso de Jacques Tourneur que dirigiu “A Morta-Viva” conseguem, mesmo assim, realizar trabalhos que se tornam marcos cinematográficos, como este. Betsy Connell (Frances Dee) é uma enfermeira contratada para tratar de Jessica Holland (Christine Gordon) que vive doente em San Sebastian, nas Antilhas. Lá descobre que o estado de saúde de Jessica foi provocado por feitiçaria (vudu) praticado como vingança, transformando-a em um zumbi. A responsável pelo vudu foi a sogra de Jessica. Esgotados os recursos médicos, Betsy acredita que um trabalho de feitiçaria possa fazer Jessica voltar à vida. O intrincado conflito familiar é explicado em um calipso ‘Shame and Sorrow in the Family’ (sucesso nos anos 60 como ‘Vergonha e Escândalo na Família’) que Betsy escuta e que afinal leva o cunhado a consumar a tragédia. Tudo ao som de tambores e excepcional fotografia que cria uma atmosfera de horror a este filme que magicamente faz com que a trama se torne verossímil. Tom Conway e James Ellison são os dois meio-irmãos que se confrontam para desgosto (e vingança) da mãe nesta história adaptada de ‘Jane Eyre’. O filme, infelizmente, costuma espantar espectadores que evitam o gênero. 10/10



segunda-feira, 30 de março de 2020

AMARGA ESPERANÇA (They Live by Night), 1949


Primeiro filme dirigido por Nicholas Ray e pioneiro nos muitos que o cinema produziria sobre jovens criminosos em fuga. O próprio Ray adaptou para o cinema o livro de Edward Anderson contando a história de Bowie (Farley Granger), que foge da prisão na companhia de dois facínoras maduros que, como ele, cumpriam penas perpétuas. Encarcerado aos 16 anos, Bowie aos 23 sonha poder provar sua inocência e ter uma vida honesta, intenção que aumenta ao conhecer Keechie (Cathy O’Donnell), com quem se casa. Junto com os dois companheiros de fuga Bowie assalta um banco, é reconhecido o que faz com que os jornais o tornem famoso e mais ainda procurado. Bowie e Keechie tentam fugir para o Novo México, mas são traídos pela irmã da moça e por fim ele é alvejado e morto pela polícia. Assim como em “Juventude Transviada”, um de seus filmes mais conhecidos, Nicholas Ray trata com enorme sensibilidade dos conflitos de jovens com a sociedade. Longe de ser um drama romântico “Amarga Esperança”, Ray faz com que o espectador divida os sonhos do jovem casal e a amargura que o destino lhes reserva neste clássico ‘noir’. Farley Granger e Cathy O’Donnell estão esplêndidos como o casal desesperado. Fracasso de público, o filme não se pagou mas foi aclamado pela crítica não só norte-americana mas especialmente a francesa. 9/10



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

RÉQUIEM PARA UM LUTADOR (Requiem for a Heavyweight), 1962


Qual a melhor interpretação de Anthony Quinn no cinema? Difícil responder entre tantos excepcionais trabalhos, mas, como ‘Mountain Rivera’, Quinn teve atuação extraordinária. Escrito como teleplay por Rod Serling e exibido na TV em 1956 (com Jack Palance como Rivera), este filme de apenas 85 minutos narra a decadência de um pugilista e como funciona o submundo da chamada ‘Nobre Arte’. Após 17 anos enfrentando pesos-pesados, Mountain Rivera luta contra o jovem Cassius Clay (Mohamad Ali, ele mesmo) e um golpe em seu olho encerra sua carreira. O grandalhão Rivera tem o rosto desfigurado, sua fala não tem articulação normal e ele tenta, sem sucesso, outra atividade. Seu empresário (Jackie Gleason) está encrencado com mafiosos e para salvá-lo Rivera termina envergonhado como índio num ringue de luta-livre. Próximo da força do clássico “Punhos de Campeão”, de Robert Wise, o maior problema desta estreia de Ralph Nelson no cinema é a inconvincente presença da assistente social tentando ajudar Rivera. Além da notável atuação de Anthony Quinn, o filme tem as ótimas presenças de Gleason, Mickey Rooney e da sempre brilhante Julie Harris. Quinn trabalhou neste filme num intervalo de dois meses das filmagens de “Lawrence da Arábia”. – 8/10





sábado, 8 de fevereiro de 2020

ULYSSES (Ulisse), 1954


Kirk Douglas exultou quando foi convidado para filmar na Itália uma aventura de capa-e-espada, gênero no qual seu amigo (e rival como astro) Burt Lancaster fazia muito sucesso. Mais ainda porque a história seria baseada na Antiguidade Clássica, mais precisamente na “Odisséia”, o poema escrito por Homero e ele Kirk interpretaria Ulysses, o herói grego. Nada menos que sete roteiristas trabalharam na adaptação para contar como Penélope (Silvana Mangano) passou dez anos esperando pelo marido Ulysses que, desde a guerra de Tróia, não mais retornou para Ítaca, onde era rei. Ulysses enfrentou tempestades, canto de sereia, o gigante Polifemo (cíclope de um só olho), um campeão de luta grega, caiu nos braços da bruxa Circe, se enamorou de uma princesa, perdeu a memória e enquanto isso vários pretendentes queriam desposar Penélope, entre eles Telêmaco (Anthony Quinn). No dia do casamento de Penélope com Telêmaco, Ulysses reaparece e toma seu lugar. “Ulysses” é um dos precursores do ‘Peplum’, gênero que dominaria o cinema italiano de 1958 a 1964 e Kirk Douglas parece ser o único a levar o filme a sério com uma interpretação transbordando de energia e vibração. Silvana Mangano interpreta dois papeis, ambos com a mesma expressão apática. Anthony Quinn aparece por minutos, infelizmente. 6/10





sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

O NONO MANDAMENTO (Strangers When We Meet), 1960


História bastante ousada para o fim da década de 50, tempos em que o cinema ainda não discutia abertamente o tema ‘adultério’. Larry Coe (Kirk Douglas) é um arquiteto que se apaixona por Margareth ‘Maggie’ Gault (Kim Novak). Ambos são casados e têm filhos mas o casamento dela vai mal, enquanto ele se deixa levar pela paixão que logo também domina Maggie. A ação se passa num subúrbio de classe média de Los Angeles e Coe está construindo uma casa para um escritor bem sucedido (Ernie Kovacs) em Bel-Air, onde moram os milionários. À medida que a casa toma forma aumenta o amor adúltero entre o arquiteto e Maggie. Eve (Barbara Rush), a esposa de Coe, descobre a traição e ele se vê diante do dilema de manter o casamento ou tentar uma nova vida com Maggie. Os melodramas atraíam multidões nos anos 50 e Douglas Sirk era cultuado como mestre do gênero. Estranhamente este excelente filme coproduzido pela Bryna de Kirk Douglas e dirigido por Richard Quine foi mal recebido pela crítica e é um dos menos conhecidos do grande ator. No entanto a história é bem narrada e envolve inteiramente o espectador crescendo magnificamente em seu final. Kirk Douglas intenso como de hábito, Kim Novak com boa atuação dentro de seus limites artísticos e Barbara Rush é quem brilha como a esposa enganada. Ninguém faz melhor um tipo canalha que o ótimo Walter Matthau. 8/10





domingo, 2 de fevereiro de 2020

DÁ-ME UM BEIJO (Kiss me Kate), 1953


Poucos são os filmes dos quais podem ser listadas dez razões para serem assistidos. “Dá-me um Beijo”, musical dirigido por George Sidney é um deles. Eis dez motivos: 1) É uma peça clássica de Shakespeare transformada em musical. 2) As canções são todas do genial Cole Porter. 3) Ann Miller está mais esfuziante e bonita que nunca (ah, que pernas!). 4) A simpatia e o vozeirão de Howard Keel. 5) A graça e a bela voz de Kathryn Grayson. 6) James Whitmore e Keenan Wynn impagáveis como gângsteres. 7) O jovem Bob Fosse apresentando seu talento a Hollywood. 8) Carol Haney dançando com Bob Fosse. 9) Os magníficos cenários medievais da peça. 10) É um musical da Metro. E ainda há a interessante trama: Cole Porter escreve um musical baseado em “A Megera Domada” e quem vai interpretar ‘Petruccio’ é Fred Graham (Howard Keel) enquanto ‘Katherine’ é Lilli Vanessi (Kathryn Grayson). Fred e Lilli são divorciados e a apresentação os reaproxima mesmo transferindo suas animosidades pessoais para os personagens. Canções inspiradíssimas de Cole Porter e coreografia admirável de Hermes Pan transmitem irresistível alegria. Além do talento do grande elenco que sabe cantar e dançar há um número engraçadíssimo com James Whitmore e Keenan Wynn. “Dá-me um Beijo” é desses filmes que nos deixa tristes quando termina, mais ainda porque esse gênero maravilhoso estava com os dias contados. 10/10