Alfred Hitchcock bem queria
filmar o livro “Celle qui n’était plus”, mas Henri-Georges Clouzot chegou antes
e realizou o suspense mais hitchcockiano do cinema. Em quase duas horas que não
permitem ao espectador respirar direito, Clouzot conta como Christina (Vera
Clouzot) e Nicole (Simone Signoret), duas professoras amigas, decidem
assassinar Michel (Paul Meurisse), o violento e despótico marido de Christina.
Após consumar o assassinato, uma série de situações estranhas passam a ocorrer
o que leva Christina ao desespero até que ela não mais suporte o medo e a
culpa. Como o próprio Clouzot pede ao final de “As Diabólicas”, mais não se
pode dizer sobre o desfecho deste filme, desfecho que é decepcionante e
incondizente com o admirável desenvolvimento ao longo do thriller. Poucas vezes
a morbidez atingiu tamanho grau e é uma pena que o roteiro dissipe o
lesbianismo que existe no livro e é levemente insinuado no filme. Afinal era
1955 ainda. Simone Signoret é magnífica e Paul Meurisse excelente, enquanto a
atriz brasileira Vera Clouzot quase coloca a perder o trabalho e dedicação do
esposo-diretor que se esforça ao extremo para ressaltar sua participação. Sucesso
de público e crítica, este é um dos grandes filmes de suspense que o Mestre
Alfred nunca cansava de elogiar e que foi muito imitado. Hollywood fez uma
versão com Sharon Stone. 9/10
quinta-feira, 9 de abril de 2020
sexta-feira, 3 de abril de 2020
KING KONG (King Kong), 1933
Nos tempos em que o cinema
se especializou em assustar o espectador com criaturas, vampiros e monstros
diversos, um filme conquistou o público, a crítica e até hoje se conserva como
o clássico dos clássicos do gênero. Ele é “King Kong” que, mesmo com todas as imitações
e refilmagens caríssimas que se seguiram e a moderna tecnologia cinematográfica
conserva-se insuperável. Merian C. Cooper e Ernest B. Shoedsack co-dirigiram e
os efeitos especiais da equipe de Willis O’Brien permanecem surpreendentes ao
contar como um gorila gigantesco é aprisionado nas Índias Orientais e levado
por um delirante produtor de filmes para Nova York. Lá seria exibido como a ‘8.ª
Maravilha do Mundo’, mas acontece que o monstro se apaixona por uma jovem atriz,
se enraivece com o ambiente à sua volta, leva a moça consigo e com ela escala o
Empire States Building. Do ponto mais alto do edifício o monstro é morto não
sem antes demonstrar a afeição pela bela. A imagem da sequência final, no recém-inaugurado
Empire States é uma das mais marcantes do século e da história do cinema neste
filme que emociona geração após geração. Lançado no pico da recessão, “King
Kong” foi sucesso absoluto nos cinemas de todo o mundo. Fay Wray, Robert
Armstrong e Bruce Cabot são os intérpretes principais coadjuvando o cativante
gorila. A trilha musical de Max Steiner é simplesmente magistral. 10/10
terça-feira, 31 de março de 2020
A MORTA-VIVA (I Walked with a Zombie), 1943
Produzido por Val Lewton
para a série ‘horror’ da RKO esta película é uma das obras-primas do ‘filme B’.
O que caracteriza um ‘filme B’ é o seu pequeno orçamento e limites artísticos,
mas alguns diretores, como o caso de Jacques Tourneur que dirigiu “A Morta-Viva”
conseguem, mesmo assim, realizar trabalhos que se tornam marcos
cinematográficos, como este. Betsy Connell (Frances Dee) é uma enfermeira
contratada para tratar de Jessica Holland (Christine Gordon) que vive doente em
San Sebastian, nas Antilhas. Lá descobre que o estado de saúde de Jessica foi
provocado por feitiçaria (vudu) praticado como vingança, transformando-a em um
zumbi. A responsável pelo vudu foi a sogra de Jessica. Esgotados os recursos
médicos, Betsy acredita que um trabalho de feitiçaria possa fazer Jessica
voltar à vida. O intrincado conflito familiar é explicado em um calipso ‘Shame
and Sorrow in the Family’ (sucesso nos anos 60 como ‘Vergonha e Escândalo na
Família’) que Betsy escuta e que afinal leva o cunhado a consumar a tragédia.
Tudo ao som de tambores e excepcional fotografia que cria uma atmosfera de
horror a este filme que magicamente faz com que a trama se torne verossímil.
Tom Conway e James Ellison são os dois meio-irmãos que se confrontam para
desgosto (e vingança) da mãe nesta história adaptada de ‘Jane Eyre’. O filme,
infelizmente, costuma espantar espectadores que evitam o gênero. 10/10
segunda-feira, 30 de março de 2020
AMARGA ESPERANÇA (They Live by Night), 1949
Primeiro filme dirigido por
Nicholas Ray e pioneiro nos muitos que o cinema produziria sobre jovens
criminosos em fuga. O próprio Ray adaptou para o cinema o livro de Edward Anderson
contando a história de Bowie (Farley Granger), que foge da prisão na companhia
de dois facínoras maduros que, como ele, cumpriam penas perpétuas. Encarcerado aos
16 anos, Bowie aos 23 sonha poder provar sua inocência e ter uma vida honesta, intenção
que aumenta ao conhecer Keechie (Cathy O’Donnell), com quem se casa. Junto com
os dois companheiros de fuga Bowie assalta um banco, é reconhecido o que faz
com que os jornais o tornem famoso e mais ainda procurado. Bowie e Keechie
tentam fugir para o Novo México, mas são traídos pela irmã da moça e por fim
ele é alvejado e morto pela polícia. Assim como em “Juventude Transviada”, um
de seus filmes mais conhecidos, Nicholas Ray trata com enorme sensibilidade dos
conflitos de jovens com a sociedade. Longe de ser um drama romântico “Amarga
Esperança”, Ray faz com que o espectador divida os sonhos do jovem casal e a amargura
que o destino lhes reserva neste clássico ‘noir’. Farley Granger e Cathy O’Donnell
estão esplêndidos como o casal desesperado. Fracasso de público, o filme não se
pagou mas foi aclamado pela crítica não só norte-americana mas especialmente a
francesa. 9/10
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
RÉQUIEM PARA UM LUTADOR (Requiem for a Heavyweight), 1962
Qual a melhor interpretação
de Anthony Quinn no cinema? Difícil responder entre tantos excepcionais
trabalhos, mas, como ‘Mountain Rivera’, Quinn teve atuação extraordinária. Escrito
como teleplay por Rod Serling e exibido na TV em 1956 (com Jack Palance como
Rivera), este filme de apenas 85 minutos narra a decadência de um pugilista e
como funciona o submundo da chamada ‘Nobre Arte’. Após 17 anos enfrentando
pesos-pesados, Mountain Rivera luta contra o jovem Cassius Clay (Mohamad Ali, ele
mesmo) e um golpe em seu olho encerra sua carreira. O grandalhão Rivera tem o
rosto desfigurado, sua fala não tem articulação normal e ele tenta, sem
sucesso, outra atividade. Seu empresário (Jackie Gleason) está encrencado com
mafiosos e para salvá-lo Rivera termina envergonhado como índio num ringue de
luta-livre. Próximo da força do clássico “Punhos de Campeão”, de Robert Wise, o
maior problema desta estreia de Ralph Nelson no cinema é a inconvincente
presença da assistente social tentando ajudar Rivera. Além da notável atuação de
Anthony Quinn, o filme tem as ótimas presenças de Gleason, Mickey Rooney e da
sempre brilhante Julie Harris. Quinn trabalhou neste filme num intervalo de
dois meses das filmagens de “Lawrence da Arábia”. – 8/10
sábado, 8 de fevereiro de 2020
ULYSSES (Ulisse), 1954
Kirk Douglas exultou quando
foi convidado para filmar na Itália uma aventura de capa-e-espada, gênero no
qual seu amigo (e rival como astro) Burt Lancaster fazia muito sucesso. Mais ainda
porque a história seria baseada na Antiguidade Clássica, mais precisamente na “Odisséia”,
o poema escrito por Homero e ele Kirk interpretaria Ulysses, o herói grego.
Nada menos que sete roteiristas trabalharam na adaptação para contar como Penélope
(Silvana Mangano) passou dez anos esperando pelo marido Ulysses que, desde a
guerra de Tróia, não mais retornou para Ítaca, onde era rei. Ulysses enfrentou
tempestades, canto de sereia, o gigante Polifemo (cíclope de um só olho), um
campeão de luta grega, caiu nos braços da bruxa Circe, se enamorou de uma princesa,
perdeu a memória e enquanto isso vários pretendentes queriam desposar Penélope,
entre eles Telêmaco (Anthony Quinn). No dia do casamento de Penélope com
Telêmaco, Ulysses reaparece e toma seu lugar. “Ulysses” é um dos precursores do
‘Peplum’, gênero que dominaria o cinema italiano de 1958 a 1964 e Kirk Douglas
parece ser o único a levar o filme a sério com uma interpretação transbordando
de energia e vibração. Silvana Mangano interpreta dois papeis, ambos com a
mesma expressão apática. Anthony Quinn aparece por minutos, infelizmente. 6/10
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
O NONO MANDAMENTO (Strangers When We Meet), 1960
História bastante ousada
para o fim da década de 50, tempos em que o cinema ainda não discutia
abertamente o tema ‘adultério’. Larry Coe (Kirk Douglas) é um arquiteto que se
apaixona por Margareth ‘Maggie’ Gault (Kim Novak). Ambos são casados e têm
filhos mas o casamento dela vai mal, enquanto ele se deixa levar pela paixão
que logo também domina Maggie. A ação se passa num subúrbio de classe média de
Los Angeles e Coe está construindo uma casa para um escritor bem sucedido
(Ernie Kovacs) em Bel-Air, onde moram os milionários. À medida que a casa toma
forma aumenta o amor adúltero entre o arquiteto e Maggie. Eve (Barbara Rush), a
esposa de Coe, descobre a traição e ele se vê diante do dilema de manter o
casamento ou tentar uma nova vida com Maggie. Os melodramas atraíam multidões
nos anos 50 e Douglas Sirk era cultuado como mestre do gênero. Estranhamente
este excelente filme coproduzido pela Bryna de Kirk Douglas e dirigido por
Richard Quine foi mal recebido pela crítica e é um dos menos conhecidos do grande
ator. No entanto a história é bem narrada e envolve inteiramente o espectador crescendo
magnificamente em seu final. Kirk Douglas intenso como de hábito, Kim Novak com
boa atuação dentro de seus limites artísticos e Barbara Rush é quem brilha como
a esposa enganada. Ninguém faz melhor um tipo canalha que o ótimo Walter
Matthau. 8/10
domingo, 2 de fevereiro de 2020
DÁ-ME UM BEIJO (Kiss me Kate), 1953
Poucos são os filmes dos
quais podem ser listadas dez razões para serem assistidos. “Dá-me um Beijo”,
musical dirigido por George Sidney é um deles. Eis dez motivos: 1) É uma peça
clássica de Shakespeare transformada em musical. 2) As canções são todas do
genial Cole Porter. 3) Ann Miller está mais esfuziante e bonita que nunca (ah,
que pernas!). 4) A simpatia e o vozeirão de Howard Keel. 5) A graça e a bela
voz de Kathryn Grayson. 6) James Whitmore e Keenan Wynn impagáveis como gângsteres.
7) O jovem Bob Fosse apresentando seu talento a Hollywood. 8) Carol Haney
dançando com Bob Fosse. 9) Os magníficos cenários medievais da peça. 10) É um
musical da Metro. E ainda há a interessante trama: Cole Porter escreve um
musical baseado em “A Megera Domada” e quem vai interpretar ‘Petruccio’ é Fred Graham
(Howard Keel) enquanto ‘Katherine’ é Lilli Vanessi (Kathryn Grayson). Fred e
Lilli são divorciados e a apresentação os reaproxima mesmo transferindo suas animosidades
pessoais para os personagens. Canções inspiradíssimas de Cole Porter e
coreografia admirável de Hermes Pan transmitem irresistível alegria. Além do
talento do grande elenco que sabe cantar e dançar há um número engraçadíssimo
com James Whitmore e Keenan Wynn. “Dá-me um Beijo” é desses filmes que nos
deixa tristes quando termina, mais ainda porque esse gênero maravilhoso estava
com os dias contados. 10/10
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
BAIXEZA (Criss Cross), 1949
Após sua notável estreia nas
telas (1946) sob a direção de Robert Siodmak em “Os Assassinos”, Burt Lancaster
voltou a ser dirigido pelo cineasta alemão em um novo ‘noir’ filmado em 1948. A
história se passa em Los Angeles e Lancaster é Steve Thompson, um guarda de
carros blindados obsessivamente apaixonado por Anna, sua ex-mulher (Yvonne De Carlo)
agora casada com o gângster Slim Dundee. A trama leva a um assalto tão bem
planejado na sua execução quanto na sucessão de traições. A sequência do roubo emociona
mesmo após vista repetidas vezes. O
final é dos mais trágicos dos filmes noir mas até chegar ao epílogo Siodmak prende
o espectador ao longo dos 88 minutos nos quais não faltam cinismo, infidelidade
e violência. E claro, o fatalismo inerente ao gênero. Cego de paixão, Thompson não
consegue ver quem, na realidade, é a mulher que ele ama, até que Anne lhe diz: “Você
simplesmente não sabe que espécie e mundo é este!” É o universo do filme noir
no qual ninguém é confiável, especialmente uma mulher bonita e ambiciosa. Um
show de enquadramento de câmeras, marca registrada de Siodmak, chama mais a
atenção que a atuação até discreta de Lancaster. Dan Duryea é excelente em seu
papel preferido e a surpresa é Yvonne De Carlo, mais linda que nunca, mostrando
que é boa atriz. 9/10
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
BRAVURA INDÔMITA (True Grit), 2010
Muitos se perguntaram se
era mesmo necessário revisitar a história de Charles Portis que se tornou um
dos maiores sucessos de John Wayne, inclusive dando a ele seu único Oscar.
Talvez não, mas o certo é que o remake de “Bravura Indômita” se juntou à
extraordinária lista de grandes filmes dos irmãos Ethan e Joel Coen. Jeff
Bridges recriou de forma admirável e com vantagem o personagem ‘Rooster’
Cogburn que, atendendo a menina Mattie Ross (Hailee Steinfeld), sai no encalço
do assassino do pai da garota. Bridges faz esquecer John Wayne, isto até a
memorável cena do enfrentamento contra o quarteto de bandidos em campo aberto
que, com o Duke, entrou para a galeria das sequências imortais do gênero. É aí
que vem a lembrança de John Wayne para roubar um pouquinho do brilho deste
western dos Coen. Por falar em Wayne, certamente John Ford assinaria a
engraçadíssima sequência do tribunal quando é apresentado o desleixado marshal
‘Rooster’ Cogburn, aquele que usa o tapa-olho, pragueja, bebe demais e é
impiedoso com os foras-da-lei. Além de Bridges e da ótima Hailee (13 anos
quando das filmagens) estão no elenco Josh Brolin e Matt Damon. Recebendo nada
menos que dez indicações para o Oscar, por ser um western “Bravura Indômita”
não ganhou nenhum, o que não impediu que esta produção de Steven Spielberg o
deixasse ainda mais rico pois foi um sucesso absoluto de bilheteria. 9/10
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