
Wim Wenders diz que Yasujiro
Ozu é seu único mestre, considerando o cinema do diretor japonês “um tesouro
sagrado”. Wenders descobriu Ozu em 1973, mas antes disso o falecido crítico
Ronaldo Monteiro (“Correio da Manhã”/RJ), já chamava a atenção para o particularíssimo
estilo de Ozu, praticamente desconhecido no Ocidente. Sua obra-prima é “Contos
de Tóquio”, também conhecida por “Viagem a Tóquio” ou “Era Uma Vez em Tóquio”,
hoje reconhecido quase unanimemente como um dos melhores filmes de todos os
tempos. Falando da velhice de um casal e do descaso dos filhos, esta é uma película
que penetra tristemente na alma de quem o assiste. “Contos de Tóquio” é de uma
singular simplicidade marcada essencialmente pela câmara estática sempre rente
ao chão e a concisão de movimentos e diálogos. Quase uma crônica observando os
comportamentos dos personagens, predominam o silêncio e a melancolia mesmo que
Ozu jamais dramatize o sofrimento e a fatalidade. As atrizes Setsuko Hara e
Haruko Sugimura são os destaques maiores do elenco perfeito deste notável
filme. Possivelmente inspirado em “A Cruz dos Anos” (1937) de Leo McCarey,
certamente motivou “Em Família” (1971), o doloroso drama familiar de Paulo
Porto com Fernanda Montenegro e Odete Lara. 9/10



Diretor:

Quando Ethan Edwards elevou a frágil e assustada sobrinha
acima de sua cabeça e abraçando-a lhe disse “Let’s
go home, Debbie”, estava o cinema sendo elevado a um momento maior de
grandeza e poesia. Porém, ao longo das duas horas deste faroeste, o autor da
frase e do delicado gesto foi mostrado como o mais sombrio e amedrontador
personagem principal que um western jamais exibira ou exibiria. De forma
devastadora John Ford rompeu com os arquétipos de heróis que o gênero criara e
apresentou um homem não só rude e corajoso, mas e principalmente neurótico,
preconceituoso e por fim paradoxal no seu comportamento. Excepcional cinematografia
de Winton C. Hoch, excelente trilha musical de Max Steiner com o tema principal
de Stan Jones executado pelo Sons of Pioneers e a Ford Stock Company em sua
melhor forma. Senão o melhor filme já feito, um dos melhores de todos os
tempos, conforme atestam inúmeras enquetes, entre elas as decenais da revista
inglesa “Sight & Sound”. A parceria Ford-Wayne que resultou em tantos
brilhantes filmes atingiu com “Rastros de Ódio” seu ponto mais alto,
inquestionável verdadeira obra de arte cinematográfica. 10/10 - Resenha completa no blog http://westerncinemania.blogspot.com.br/
Diretor:

John
Ford passou anos tentando fazer este filme, só conseguindo realizá-lo num
estúdio menor, a Republic Pictures, o único que se arriscou ao capricho do
diretor. Ford disse que "Depois do Vendaval" era apenas uma história
de amor, porém mais que isso é uma história de amor dele próprio à adorada
Irlanda de seus ancestrais. Levar à tela essa quase obsessão deu muito dinheiro
à Republic e muitos prêmios ao filme, entre eles o quarto e último Oscar como
Melhor Diretor a Ford. "Depois do Vendaval" enternece e diverte ao
contar como John Wayne consegue domar Maureen O'Hara, tendo um dote como
obstáculo maior, maior até que o cunhado Victor McLaglen. Para isso Wayne
desobedece aos costumes do pequeno lugarejo irlandês que mais se assemelha a um
paraíso idealizado por Ford, ainda que seja lembrado o separatista IRA. Entre
os muitos belos momentos do filme brilhantemente musicado por Victor Young e
com imagens maravilhosas de Winton C. Hoch está a sequência em que Barry
Fitzgerald vê a cama do casal destruída na noite de núpcias e exclama:
"Impetuoso! Homérico!" Wayne e Maureen reunidos pela segunda vez
estão perfeitos, com Wayne mostrando que era sim bom ator quando exigido,
secundados pelo ótimo Ward Bond, desta vez como um padre. 8/10




Diretor:

No mesmo ano em que Orson
Welles estreou com o ruidoso “Cidadão Kane”, John Huston fazia também seu
primeiro filme e igualmente a ‘Kane’ um marco cinematográfico. Levada às telas
pela terceira vez, a história “O Falcão Maltês” de Dashiell Hammett não
prometia mais que apenas outro policial rotineiro, mas “Relíquia Macabra” foi
muito além disso. Com roteiro também de Huston que praticamente transcreveu a novela
de Hammett sobre a busca de uma estatueta valiosíssima que rodava pelo mundo
desde o século XIV, o diretor realizou um filme que se tornou instantaneamente
influente. O estilo noir ainda não existia como tendência, mas John Huston criou,
sem malabarismos de câmara ou iluminação, um clássico que teve a feliz escolha
de Humphrey Bogart para interpretar o cínico, violento, homofóbico e amoral
detetive Sam Spade. Na disputa pela preciosa relíquia Spade se defronta com um
trio inesquecível de vilões formado por Sidney Greenstreet e Peter Lorre, ambos
latentemente homossexuais, e mais o psicótico Elisha Cook Jr. Mentirosa, fria e
distante da comum mulher fatal Mary Astor completa o esplêndido elenco do filme
que elevou Bogart à condição de astro. 9/10



Diretor:

Revisto 30 anos após seu
lançamento este filme de Federico Fellini não causou o mesmo impacto pois o
mundo havia mudado bastante em três décadas. Em 1960 o Vaticano tentara proibir
sua exibição, declarando-o, através de seus jornais, um filme blasfemo, um verdadeiro
sacrilégio, tendo sido banido em alguns países católicos. Assistido quase 60
anos depois esta realização de Fellini mostra-se atemporal e universal em
muitos aspectos que não aqueles que chocaram ao mostrar o hedonismo, a
devassidão e a frivolidade retratada na Roma dos anos 60. Sem nenhuma pretensão
de inovação cinematográfica, “La Dolce Vita” criou uma nova forma de fazer
cinema, com um tipo de narrativa onde aparentemente nada acontece mas que magicamente
envolve o espectador. É a atmosfera felliniana que seduz e conduz aos
simbolismos que seu filme contém, à crítica social e à futilidade de
comportamento. Não há uma trama estabelecida e o único personagem central é o
do jornalista Marcello, através de quem a sardônica prosa de Fellini dividida
em sete episódios transcorre por quase três horas sem jamais cansar o
espectador. Marcello Mastroianni revelou-se com este filme um dos grandes
sedutores do cinema e ao mesmo tempo um admirável ator. Ao lado de “Amarcord”
as obras-primas de Fellini. 10/10



Diretor:

Depois da bem sucedida artística e comercialmente
‘Trilogia dos Dólares’, Sergio Leone entendeu que chegara a hora de lembrar ao
mundo que sua criatividade não conhecia limites. Com “Era Uma Vez no Oeste” o
diretor italiano pretendeu mostrar a chegada da civilização ao Velho Oeste
realizando um filme majestoso e deslumbrante. Atingiu seu objetivo pois nenhum
outro western se compara a “Era Uma Vez no Oeste” quanto a impressionar pelo
lirismo elegíaco de suas imagens. Reconhecido tanto por sua inventividade
quanto por seus excessos, Leone não dosou devidamente seu estilo ao conceber
uma grande ópera-western. Esta suprema teatralização do gênero mereceria ser
creditada como um filme de Sergio Leone e Ennio Morricone pela importância da
música do genial maestro-compositor da qual as imagens não podem ser
dissociadas. Preocupado em fazer excessivas referências aos westerns
norte-americanos que tanto reverenciava, por vezes o roteiro denuncia que a
preocupação de Leone era menos com a história e mais com as possibilidades dos
elaboradíssimos maneirismos de seu estilo.
Claudia Cardinale está mais linda que nunca compensando sua limitação
como atriz dramática. Henry Fonda perfeito como o cruel vilão e Charles Bronson
faz de tudo para que se esqueça que Harmônica foi imaginado para Clint
Eastwood. 8/10 - Resenha completa no blog http://westerncinemania.blogspot.com.br/
Diretor:
Dalton Trumbo escreveu, em
1949, uma história diferente mas que lembrava Cinderela ao contrário. Uma
princesa que se apaixona por um simples jornalista, história que o próprio
Trumbo roteirizou antes de se tornar um dos ‘Dez de Hollywood’. O projeto acabou
nas mãos de William Wyler que, em 1953, cansado de tantos filmes dramáticos
queria filmar algo mais leve e foi para Roma rodar “A Princesa e o Plebeu”.
Gregory Peck é o jornalista e a novata em Hollywood, aos 23 anos de idade e
belga de nascimento, Audrey Hepburn é a princesa que cansada da rotina
burocrática foge do palácio onde está hospedada em Roma e vive 24 horas distante
do conforto da realeza. Wyler realizou uma das mais adoráveis comédias
românticas do cinema e revelou ao mundo uma atriz por quem todos se
apaixonaram. A graça, a elegância, a discreta sofisticação, o charme
irresistível e a beleza de Audrey somaram-se ao seu admirável talento como
atriz. Gregory Peck está magnífico como o jornalista que muda seus planos ao se
descobrir apaixonado pela princesa e méritos para William Wyler que comprova mais
uma vez ser um excepcional diretor de atores. Audrey recebeu o Oscar de Melhor
Atriz, bem como o roteiro de Dalton Trumbo e “A Princesa e o Plebeu” fez enorme
sucesso. Daqueles filmes que mereciam ser em cores para melhor se ver Audrey e
Roma. 9/10




Diretor:

Um filme norte-americano é selecionado para preservação na Biblioteca do
Congresso se ele tiver significação cultural, histórica ou estética. Pois “Curva
do Destino”, uma produção baratíssima da pequena Producers Releasing
Corporation (PRC), produtora mais lembrada por suas séries de westerns-B,
obteve essa honraria que só grandes clássicos conseguem. Dirigido pelo austro-húngaro
Edgar G. Ulmer, “Curva do Destino” é um dos mais perfeitos exemplos de autêntico
filme noir com seus 68 minutos de duração permeados pelo fatalismo comum ao
gênero. Narrado em primeira pessoa pelo irritadiço e pessimista anti-herói (Tom
Neal), “Detour” traz a impressionante caracterização da mulher fatal, cruel e opressiva
(Ann Savage). O personagem de Neal faz uma série de opções erradas, ilógicas
mesmo e típicas de quem vive um pesadelo, o que o leva ao desvio do título original.
Numa das melhores frases do excepcional roteiro de Martin Goldsmith, Neal diz
que para onde quer que vá o destino lhe aplicará uma rasteira. Estilo visual e
narrativa magníficos com destaque para as interpretações de Neal e Ann Savage,
esta perto de quem Phyllis Dietrichson (Barbara Stawyck) é até suave. 8/10



Diretor: