
Nada indicava que aquele
diretor chamado Jules Dassin, perseguido pelo macarthismo e que se exilara na
Europa, faria uma das mais encantadoras comédias do cinema. Da filmografia de
Dassin constava dramas e policiais sombrios mas seu sonho era dirigir a
história que escrevera sobre uma cativante prostituta, algo que naqueles
tempos era fora de cogitação. Casado com a atriz grega Melina Mercouri, ela era
a meretriz perfeita que saciava a fome de amor de quase todos os homens do porto
de Pireus, a qualquer hora de qualquer dia da semana, menos nos domingos. Esse
dia Ilya reservava para assistir às tragédias gregas que para ela tinham sempre
um final feliz, fosse “Édipo-Rei” ou “Medéia”. E a felicidade de Ilya era
completada pelo prazer que proporcionava a sua numerosa clientela, até que um
norte-americano que está em busca da ‘verdade da vida’ consegue entristecer a
radiante Ilya. O tema de “Nunca aos Domingos” discute se a Filosofia, a
moralidade e as artes em geral podem por si só tornar alguém feliz, concluindo que não. A
música de Manos Hadjidakis é magnífica e a música-tema foi a primeira canção
estrangeira a ser premiada com o Oscar. Dassin está maçante como o antipático
turista que se mete na vida de Ilya, mas Tito Vandis (Jorgo) só brilha menos
que a adorável, sedutora e maravilhosa Melina. 9/10


Diretor:

A guerra fria entre USA e
URRS prosseguia e cada contendor usava as armas que podia. O cinema era uma das
formas de os norte-americanos atacarem e em 1957 Hollywood realizou uma sátira
mordaz ao regime soviético com a comédia musical “Meias de Seda”, refilmagem do
clássico “Ninotchka” com Greta Garbo. Se no filme de 1939 havia o texto
irresistível de Billy Wilder e Charles Brackett, em “Meias de Seda” há música,
dança e Paris para ‘corromper’ Ninotchka e o trio de enviados de Moscou. Como
poderiam eles resistir à dança, à música e à Cidade-Luz, mais ainda se a música
for de Cole Porter e Fred Astaire estiver dançando. Cole Porter não estava no
habitual estado de graça, mas “All of You” vale por todas as demais canções.
Esse clássico foi interpretado por Fred Astaire que se despediu da dança no
cinema com este filme, aos 58 anos de idade. Mas para compensar Cyd Charisse
está maravilhosa, dançando como nunca e exibindo o mais lindo par de pernas que
o cinema já viu, além de fazer um inesquecível (e até onde possível)
strip-tease. Tente reconhecer ‘M’ (Peter Lorre) divertidíssimo saltitando com
seus olhos esbugalhados ao som da deliciosa “Siberia”. Rouben Mamoulian dirigiu
o “Meias de Seda”, seu último filme. 8/10


Diretor:

Enganam-se aqueles que
acreditam que “Shane” foi o mais importante filme da carreira de Alan Ladd. Em
1941, depois de dez anos tentando em vão uma boa oportunidade no cinema (apareceu
até em “Cidadão Kane”) Ladd foi contratado pela Paramount para ser coadjuvante
num filme feito para Veronica Lake. Logo nas primeiras tomadas o diretor Frank
Tuttle percebeu que o personagem do assassino de aluguel ‘Raven’ deveria ser
expandido e Veronica passou para o segundo plano, assim como Robert Preston e
Alan Ladd domina o filme como o frio psicopata, numa interpretação primorosa, que jamais repetiria. O
enorme Laird Cregar faz um tipo acovardado e divertido, roubando todas as cenas
em que aparece. Concebido para ser um filme B, ao custo de 500 mil dólares, “Alma
Torturada” é um policial noir com ritmo, atmosfera e ação perfeitos nos seus 80
minutos de duração. Rendeu mais de 12 milhões de dólares em seu lançamento, catapultando
a carreira de Alan Ladd. A Paramount reuniu a dupla Lake-Ladd por mais três
vezes especialmente porque faziam um par perfeito ela com seu 1,51m de altura e
ele 1,63m. Curiosamente ambos faleceram aos 50 anos de idade, tendo os dois sérios
problemas com o alcoolismo. 8/10
Diretor:

Sam Peckinpah já havia dado
ao gênero western duas obras-primas com “Pistoleiros do Entardecer” (1962) e
“Meu Ódio Será Sua Herança” (1969). A expectativa com “Pat Garrett & Billy
the Kid” era que Peckinpah completasse com outro grande filme uma espécie de
trilogia sobre o fim do Velho Oeste falando de William Bonney, personagem
lendário cuja vida Hollywood nunca cansou de explorar. Criando com seu
temperamento explosivo os costumeiros problemas durante as filmagens, tudo se
agravou durante a produção com o então alcoolismo incontrolável de
Peckinpah. O esperado filme mostrou-se
incoerente, repleto de situações e personagens que pouco tem a ver ou
contribuem para a coesão do enredo e envolvimento do espectador. Há, como não
poderia deixar de ser, uma ou outra sequência que denunciam o talento de
Peckinpah, mas é pouco, mesmo na versão que a Turner lançou como sendo a
‘director’s cut’, com 115 minutos de duração. Peckinpah se esqueceu de Billy
the Kid e se concentrou no drama pessoal de Pat Garrett, esplendidamente vivido
por James Coburn. Um número enorme de formidáveis atores coadjuvantes são
desperdiçados em pontas insignificantes e Bob Dylan, autor da bela trilha
sonora musical tem uma insuperavelmente bizarra atuação. 6/10



Diretor:

Insatisfeito com a
interpretação de Katharine Hepburn em “Levada da Breca”, Howard Hawks a chamou
num canto e disse: ‘Kate, nem Buster
Keaton, Chaplin ou Harold Lloyd sorriem quando atuam; a graça deles vem das
situações nas quais se envolvem’. A atriz, em sua primeira comédia, mudou
o estilo de atuar e o resultado foi uma de suas mais memoráveis performances
como a rica herdeira que se apaixona pelo jovem e tímido paleontólogo interpretado
por Cary Grant. Do início ao fim o casal se envolve em confusões com ‘Baby’,
um leopardo e ‘George’, um cão, além de muitos outros tipos atrapalhados. Grant
faz uso pela primeira vez no cinema da expressão ‘gay’ com o sentido que ela
possui atualmente e a sequência em que ele tenta esconder o vestido rasgado de
Kate é antológica. E é a deliciosa, anárquica e esfuziante Kate quem conquista
Grant, Baby, George e o público. Considerada uma exemplar ‘screwball comedy’ esta
comédia nem sempre teve status de clássica, mesmo porque foi um fracasso de
bilheteria e deu grande prejuízo à RKO. Peter Bogdanovich foi quem primeiro
afirmou que o alucinado filme de Hawks era uma obra-prima e inspiração para seu
“Esta Pequena é uma Parada” em 1972. 8/10



Diretor: