quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

NUNCA AOS DOMINGOS (Pote kin Kyriaki), 1960


Nada indicava que aquele diretor chamado Jules Dassin, perseguido pelo macarthismo e que se exilara na Europa, faria uma das mais encantadoras comédias do cinema. Da filmografia de Dassin constava dramas e policiais sombrios mas seu sonho era dirigir a história que escrevera sobre uma cativante prostituta, algo que naqueles tempos era fora de cogitação. Casado com a atriz grega Melina Mercouri, ela era a meretriz perfeita que saciava a fome de amor de quase todos os homens do porto de Pireus, a qualquer hora de qualquer dia da semana, menos nos domingos. Esse dia Ilya reservava para assistir às tragédias gregas que para ela tinham sempre um final feliz, fosse “Édipo-Rei” ou “Medéia”. E a felicidade de Ilya era completada pelo prazer que proporcionava a sua numerosa clientela, até que um norte-americano que está em busca da ‘verdade da vida’ consegue entristecer a radiante Ilya. O tema de “Nunca aos Domingos” discute se a Filosofia, a moralidade e as artes em geral podem por si só tornar alguém feliz, concluindo que não. A música de Manos Hadjidakis é magnífica e a música-tema foi a primeira canção estrangeira a ser premiada com o Oscar. Dassin está maçante como o antipático turista que se mete na vida de Ilya, mas Tito Vandis (Jorgo) só brilha menos que a adorável, sedutora e maravilhosa Melina. 9/10




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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

MEIAS DE SEDA (Silk Stockings), 1957


A guerra fria entre USA e URRS prosseguia e cada contendor usava as armas que podia. O cinema era uma das formas de os norte-americanos atacarem e em 1957 Hollywood realizou uma sátira mordaz ao regime soviético com a comédia musical “Meias de Seda”, refilmagem do clássico “Ninotchka” com Greta Garbo. Se no filme de 1939 havia o texto irresistível de Billy Wilder e Charles Brackett, em “Meias de Seda” há música, dança e Paris para ‘corromper’ Ninotchka e o trio de enviados de Moscou. Como poderiam eles resistir à dança, à música e à Cidade-Luz, mais ainda se a música for de Cole Porter e Fred Astaire estiver dançando. Cole Porter não estava no habitual estado de graça, mas “All of You” vale por todas as demais canções. Esse clássico foi interpretado por Fred Astaire que se despediu da dança no cinema com este filme, aos 58 anos de idade. Mas para compensar Cyd Charisse está maravilhosa, dançando como nunca e exibindo o mais lindo par de pernas que o cinema já viu, além de fazer um inesquecível (e até onde possível) strip-tease. Tente reconhecer ‘M’ (Peter Lorre) divertidíssimo saltitando com seus olhos esbugalhados ao som da deliciosa “Siberia”. Rouben Mamoulian dirigiu o “Meias de Seda”, seu último filme. 8/10




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domingo, 5 de fevereiro de 2017

ALMA TORTURADA (This Gun for Hire), 1942


Enganam-se aqueles que acreditam que “Shane” foi o mais importante filme da carreira de Alan Ladd. Em 1941, depois de dez anos tentando em vão uma boa oportunidade no cinema (apareceu até em “Cidadão Kane”) Ladd foi contratado pela Paramount para ser coadjuvante num filme feito para Veronica Lake. Logo nas primeiras tomadas o diretor Frank Tuttle percebeu que o personagem do assassino de aluguel ‘Raven’ deveria ser expandido e Veronica passou para o segundo plano, assim como Robert Preston e Alan Ladd domina o filme como o frio psicopata, numa interpretação primorosa, que jamais repetiria. O enorme Laird Cregar faz um tipo acovardado  e divertido, roubando todas as cenas em que aparece. Concebido para ser um filme B, ao custo de 500 mil dólares, “Alma Torturada” é um policial noir com ritmo, atmosfera e ação perfeitos nos seus 80 minutos de duração. Rendeu mais de 12 milhões de dólares em seu lançamento, catapultando a carreira de Alan Ladd. A Paramount reuniu a dupla Lake-Ladd por mais três vezes especialmente porque faziam um par perfeito ela com seu 1,51m de altura e ele 1,63m. Curiosamente ambos faleceram aos 50 anos de idade, tendo os dois sérios problemas com o alcoolismo. 8/10






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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PAT GARRETT & BILLY THE KID (1973)


Sam Peckinpah já havia dado ao gênero western duas obras-primas com “Pistoleiros do Entardecer” (1962) e “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969). A expectativa com “Pat Garrett & Billy the Kid” era que Peckinpah completasse com outro grande filme uma espécie de trilogia sobre o fim do Velho Oeste falando de William Bonney, personagem lendário cuja vida Hollywood nunca cansou de explorar. Criando com seu temperamento explosivo os costumeiros problemas durante as filmagens, tudo se agravou durante a produção com o então alcoolismo incontrolável de Peckinpah.  O esperado filme mostrou-se incoerente, repleto de situações e personagens que pouco tem a ver ou contribuem para a coesão do enredo e envolvimento do espectador. Há, como não poderia deixar de ser, uma ou outra sequência que denunciam o talento de Peckinpah, mas é pouco, mesmo na versão que a Turner lançou como sendo a ‘director’s cut’, com 115 minutos de duração. Peckinpah se esqueceu de Billy the Kid e se concentrou no drama pessoal de Pat Garrett, esplendidamente vivido por James Coburn. Um número enorme de formidáveis atores coadjuvantes são desperdiçados em pontas insignificantes e Bob Dylan, autor da bela trilha sonora musical tem uma insuperavelmente bizarra atuação. 6/10





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domingo, 29 de janeiro de 2017

A MARCA DA MALDADE (Touch of Evil), 1958


Orson Welles estava há 10 anos sem filmar nos Estados Unidos quando Charlton Heston conseguiu que fosse ele o diretor de “A Marca da Maldade”. O próprio Welles reescreveu o roteiro, além de também atuar e realizar aquele que seria seu último filme em Hollywood. E que filme! Um marco do gênero policial noir num thriller que subverte a ordem ao mostrar um investigador mexicano como herói e o vilão sendo o norte-americano capitão de polícia Hank Quinlan. Interpretado por Orson Welles, Quinlan é uma figura monstruosa em seu aspecto repugnante e na maldade com que pautou sua vida como homem da lei corrupto que age numa cidade de fronteira com o México. A famosa sequência de abertura é apenas um dos grandes momentos desta verdadeira aula de cinema que é “A Marca da Maldade”, filme que como “Cidadão Kane” deve ser visto muitas vezes para se descobrir plenamente sua criatividade. Welles com nariz postiço e mais rotundo que nunca não é o destaque maior do excelente elenco que tem Heston muito bem e Janet Leigh provocante num tipo que repetiria em “Psicose”. Ficam para Akim Tamiroff e Joseph Calleia as atuações mais relevantes desta obra-prima do talentoso Welles. 10/10






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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A UM PASSO DA ETERNIDADE (From Here to Eternity), 1953


Fred Zinnemann tinha predileção por personagens fortemente determinados que não abriam mão de seus princípios mesmo quando submetidos aos desígnios de poderosos sem escrúpulos. Assim foram Will Kane, Sir Thomas Moore e o soldado Robert E. Lee Prewitt, este de “A Um Passo da Eternidade”. As mais de 800 páginas do best-seller de James Jones que escancarou as mazelas do militarismo foram transformadas num filme de 118 minutos que igualmente denunciou que ser soldado não significava apenas a possibilidade de voltar da guerra com o peito coberto de medalhas. Para poder filmar o livro a Columbia teve que atenuar ou omitir passagens, mas estão neste corajoso filme, tão forte quanto amargo, a crueldade cercada pelos muros do quartel de uma base aérea no Havaí em 1941, às vésperas do ataque a Pearl Harbor. “A Um Passo da Eternidade” arrebatou cinco prêmios Oscar, ignorando a extraordinária interpretação de Montgomery Clift que humilhou Burt Lancaster e Frank Sinatra (boa atuação, mas não para o prêmio que recebeu). Deborah Kerr inteiramente fora da personagem da esposa adúltera (por onde andava Lana Turner?) e Donna Reed (outra premiação equivocada). O tempo não fez muito bem a “A Um Passo da Eternidade” que hoje impressiona muito menos que décadas atrás, sem deixar de ser um grande filme. 8/10






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domingo, 22 de janeiro de 2017

LEVADA DA BRECA (Bringing Up Baby), 1938


Insatisfeito com a interpretação de Katharine Hepburn em “Levada da Breca”, Howard Hawks a chamou num canto e disse: ‘Kate, nem Buster Keaton, Chaplin ou Harold Lloyd sorriem quando atuam; a graça deles vem das situações nas quais se envolvem’. A atriz, em sua primeira comédia, mudou o estilo de atuar e o resultado foi uma de suas mais memoráveis performances como a rica herdeira que se apaixona pelo jovem e tímido paleontólogo interpretado por Cary Grant. Do início ao fim o casal se envolve em confusões com ‘Baby’, um leopardo e ‘George’, um cão, além de muitos outros tipos atrapalhados. Grant faz uso pela primeira vez no cinema da expressão ‘gay’ com o sentido que ela possui atualmente e a sequência em que ele tenta esconder o vestido rasgado de Kate é antológica. E é a deliciosa, anárquica e esfuziante Kate quem conquista Grant, Baby, George e o público. Considerada uma exemplar ‘screwball comedy’ esta comédia nem sempre teve status de clássica, mesmo porque foi um fracasso de bilheteria e deu grande prejuízo à RKO. Peter Bogdanovich foi quem primeiro afirmou que o alucinado filme de Hawks era uma obra-prima e inspiração para seu “Esta Pequena é uma Parada” em 1972. 8/10





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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CARMEN JONES (1954)


Filmes com elencos compostos exclusivamente por negros sempre fracassaram nas bilheterias e nada indicava que Hollywood voltasse a produções desse tipo. Mas eis que o austro-húngaro Otto Preminger convenceu a 20th Century-Fox a produzir um musical só com negros no elenco. Mais surpreendente ainda é que o filme seria uma versão da ópera “Carmen”, de Georges Bizet, aproveitando a adaptação feita para a Broadway em 1943 com letras de Oscar Hammerstein II. A cigana Carmen passa a ser uma mulata irrequieta e atrevida que conquista o cabo da Força Aérea Joe e o trai com o campeão de boxe Husky Miller, com a história transferida para os tempos da II Grande Guerra. Como não poderia deixar de ser essa ‘subversão’ foi boicotada nos Estados Unidos, fazendo no entanto sucesso e sendo bastante premiada na Europa, menos na França, onde foi proibida. “Carmen Jones” teve brilhante direção e foi admiravelmente interpretado por Dorothy Dandridge e Harry Belafonte, ambos dublados nas sensacionais canções. “La Habanera” virou “Dat’s Love” e “Toreador” ficou sendo “Stan’ up an’ Fight”, alguns dos destaques da esplêndida trilha musical. O trágico desfecho é pura emoção e Dorothy só não se tornou uma das maiores estrelas de seu tempo porque era negra. Por sua deslumbrante atuação foi indicada ao Oscar, mas a Academia preferiu a loura Grace Kelly. 9/10





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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

FLECHAS DE FOGO (Broken Arrow), 1950


Tido e havido como o primeiro western do cinema norte-americano simpático aos índios, adveio desse fato a fama maior de “Flechas de Fogo”. Fama por sinal discutível já que “A Passagem do Diabo” (Devil’s Doorway), de Anthony Mann e também favorável aos nativos, foi rodado em 1949. E antes disso Mestre John Ford já havia, em “Sangue de Heróis” (Fort Apache), mostrado que os índios mereciam respeito e não só serem dizimados pela Cavalaria. Neste seu primeiro western Delmer Daves privilegiou o tema principal realizando um filme sem muita ação mas que ousadamente discute até a aceitação de casamento entre brancos e índios, se bem que James Stewart aos 42 anos está longe do par ideal para a adolescente Debra Paget então com 16 aninhos. Jeff Chandler com seu estilo característico de interpretação impassível foi inacreditavelmente indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante ao viver Cochise pela primeira vez. Jay Silverheels como ‘Jerônimo’ mostra que tinha mais talento interpretativo que Chandler. Albert Maltz, um dos dez da Lista Negra do Macarthismo foi um dos roteiristas de “Flechas de Fogo”, western que após a onda revisionista parece até ingênuo, mas que em 1950 chocou os espectadores que acreditavam que ‘índio bom é índio morto’. 7/10





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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

GILDA (Gilda), 1946


Longe de ser uma obra-prima, “Gilda” é uma das melhores definições do tão discutido termo ‘filme clássico’. Fez de Rita Hayworth a mulher mais desejada do mundo naqueles tempos e centenas e centenas de bebês, inclusive no Brasil receberam o nome ‘Gilda’ ao nascer. Até uma bomba foi assim chamada. Por aqui Gilda virou marchinha de Carnaval e o filme dirigido por Charles Vidor reunindo Rita e Glenn Ford foi um enorme sucesso de bilheteria. Pela primeira vez no cinema vimos uma câmara perdidamente apaixonada por uma atriz, seduzida por seus olhares, trejeitos e arrebatadora beleza. Rita dançando e cantando (foi dublada, todos sabemos) “Put the Blame on Mame” e “Amore Mio” são desses momentos eternos do cinema. Ah sim, o filme é um arremedo de “Casablanca” sem o charme, trama e diálogos inteligentes deste e também porque Glenn Ford não é Humphrey Bogart e Charles Vidor não é Michael Curtiz. Frases bizarras ditas pelos personagens chegam a fazer rir num filme misógino com dois homens enamorados um pelo outro desprezando o monumento que é Gilda. O grotesco final de tão inadequado parece ter sido escrito pelo censor do Código Hays. Mas se em “Casablanca” Ilse e Rick tiveram Paris, em “Gilda” o cinema teve Rita Hayworth deslumbrantemente esplendorosa e por isso “Gilda” é sim, um clássico. 7/10






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