sexta-feira, 7 de abril de 2017

ACORRENTADOS (The Defiant Ones), 1958


Stanley Kramer era conhecido como o homem dos filmes-mensagens porque, seja como produtor ou como diretor, tinha sempre a preocupação de abordar temas polêmicos. “O Selvagem” (juventude rebelde), “Matar ou Morrer” (macarthismo), “A Hora Final” (apocalipse atômico), “O Vento Será sua Herança” (darwinismo) são alguns dos filmes com a marca inconfundível de Stanley Kramer. Corajoso para alguns e oportunista para outros, com “Acorrentados” Kramer levou à tela uma inusitada reflexão sobre o racismo antes do início das marchas pelos direitos civis nos EUA. Sidney Poitier e Tony Curtis são dois prisioneiros que conseguem escapar acorrentados um ao outro e durante a fuga se manifesta, como não poderia deixar de ser, o racismo recíproco. Atados pelo grilhão de aço aprendem a se respeitar e nasce entre os dois o sentimento de amizade até então improvável, numa alegoria que causou grande impacto como queria Kramer. “Acorrentados” é um filme imperfeito que foi indicado em inesperadas nove categorias para o Oscar. O fraco roteiro e a fotografia em preto e branco foram premiados pela Academia. Sidney Poitier com excelente atuação domina o filme e Tony Curtis se esforça para superar suas limitações como ator dramático. 7/10






Direção: Stanley Kramer. Elenco: Sidney Poitier – Tony Curtis – Charles McGraw – Theodore Bikel – Cara Williams – Lon Chaney Jr. – King Donovan – Carl ‘Alfafa’ Switzer – Claude Akins – Kevin Coughlin – Harold Jacob Smith – Nedrick Young – Lawrence Dobkin – Boyd ‘Red’ Morgan – Whit Bissell 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

FÉRIAS DE AMOR (Picnic), 1955


Bem antes de “A Caldeira do Diabo” este filme de Joshua Logan já mostrava que por trás da aparência tranquila de uma cidade do interior o que não faltava eram pessoas problemáticas. Especialmente as mulheres que sofriam por razões diversas e a chegada de um ‘jovem’ a uma cidadezinha do Kansas fez aflorar os transtornos represados. Tudo acontece durante as 24 horas de um feriado comemorado com o tradicional piquenique, tempo suficiente para William Holden roubar Kim Novak de seu noivo Cliff Robertson. A peça “Picnic” de William Inge fez sucesso na Broadway em 1953 e tinha no elenco o estreante Paul Newman. Levada ao cinema o personagem do ‘jovem’ ficou para William Holden que aos 38 anos está velho demais num papel que só poderia ser de Newman. A famosa sequência de dança entre Holden e Kim Novak ao som de “Monglow” deu imenso trabalho para ser filmada porque nenhum dos dois sabia dançar, o que se percebe claramente. A linda Kim Novak comprova que seu talento é diametralmente oposto à sua beleza, mas para compensar há Susan Strasberg, Betty Field e Rosalind Russell em magníficos desempenhos. “Férias de Amor” fez muito sucesso e “Moonglow” embalou sabe-se lá quantos milhões de pares tão românticos como Kim e Holden no filme. 7/10
  





Direção: Joshua Logan – Elenco: William Holden – Kim Novak – Betty Field – Susan Strasberg – Arthur O’Connell – Rosalind Russell – Cliff Robertson – Verna Felton – Nick Adams – Phyllis Newman – Reta Shaw – Elizabeth Wilson – Raymond Bailey – Don C. Harvey – Steve Benton – Henry Pagueo – Abraham Weinlood

terça-feira, 4 de abril de 2017

OS CAFAJESTES, 1962


Celebrado por conter o pioneiro nu frontal do cinema brasileiro, este filme do moçambicano Ruy Guerra foi um dos precursores do movimento renovador denominado Cinema Novo. Fortemente influenciado pela Nouvelle Vague, Ruy Guerra não se fez de rogado e recheou este seu primeiro filme com a dinâmica câmara (na mão, claro), composição de imagens e situações que em tudo remetem a Godard, Chabrol e Truffaut em seus trabalhos iniciais. E a inspiração para narrar a longa jornada de loucuras de dois jovens boas-vidas certamente veio de Mauro Bolognini e Federico Fellini. Para completar não poderiam faltar os cansativos diálogos sobre a alienação dos personagens principais ou os prolongados silêncios à moda de Antonioni. À magnífica fotografia de Toni Rabatoni nas sequências noturnas some-se a boa interpretação de Jece Valadão que melhor que ninguém vivia um ser desprezível, o bem acabado cafajeste do nosso cinema. Daniel Filho não fazia suspeitar o ótimo ator que se tornaria anos depois. Raro sucesso de público do Cinema Novo deve-se sem dúvida à exposição da nudez de Norma Bengell maravilhosamente fotografada numa sequência que ficaria muito melhor se reduzida à metade para não perder a força como aconteceu. 6/10






Direção: Ruy Guerra / Elenco: Jece Valadão - Norma Bengell - Daniel Filho - Glauce Rocha - Lucy de Carvalho - Hugo Carvana - Aline Silva - Germana de Lamare - Fátima Somer

segunda-feira, 3 de abril de 2017

BEAU GESTE, 1939


O ano de ouro do cinema de 1939 teve entre os muitos grandes filmes três aventuras inesquecíveis que foram “As Quatro Penas Brancas”, “Gunga Din” e “Beau Geste”. Baseado em romance de P.C. Wren, autor ex-soldado da Legião Estrangeira, “Beau Geste” foi levado ao cinema inúmeras vezes mas o filme dirigido por William A. Wellman é considerado clássico entre as diversas versões. Uma trama de mistério sobre o desaparecimento de uma valiosa safira serve de pretexto para que três irmãos – Beau, Digby e John – se alistem na Legião Estrangeira onde o maior inimigo não são os tuaregs montados em seus cavalos negros. A crueldade do Sargento Markoff é que mais desperta nos irmãos legionários a vontade de sobreviver sem perder a dignidade e permanecer unidos. As espetaculares sequências de defesa do Forte Zinderneuf, no Sahara são o ponto alto desta aventura em que Gary Cooper (Beau) tem participação apagada parecendo ter percebido que Brian Donlevy (Sargento Markoff) lhe roubaria o filme. O numeroso elenco tem ainda Ray Milland e Robert Preston como os outros irmãos Geste, além de Broderick Crawford e Donald O’Connor como Beau na infância. Decepção para os fãs de Susan Hayward pois ela pouco aparece e sempre atrás de um piano. Diversão de alto nível. 8/10





Direção: William A. Wellman / Elenco: Gary Cooper - Ray Milland - Robert Preston - Susan Hayward - Brian Donlevy - Heather Thatcher - James Stephenson - J. Carrol Naish - Broderick Crawford - Albert Dekker - Stanley Andrews - Harold Bubber - Henry Brandon - Harvey Stephens - James Burke - Charles Barton - Donald O'Connor - Martin Spellman - Ann Gillis - Billy Cook - David Holt - Frank McDonald - Arthur Aylesworth - G.P. Huntley - Frank Dawson - Harry Woods - Bob Kortman

sexta-feira, 31 de março de 2017

UMA MULHER PARA DOIS (Jules et Jim), 1961


A Nouvelle Vague surpreendeu o mundo não só pelo estilo de filmar mas também pela abordagem de temas incomuns ao cinema. François Truffaut, um dos expoentes do movimento, levou às telas em seu terceiro filme um triângulo amoroso delicado, alegre, provocante e afinal doloroso. Jules e Jim são os amigos que se apaixonam pela radiante Catherine, mulher que os domina com sua irresistível personalidade fazendo com que os dois homens aceitem suas pequenas loucuras e previsíveis traições. Jeanne Moreau como a frívola Catherine é, tanto quanto o próprio Truffaut, responsável por tornar “Jules e Jim” uma história com inegável encanto. “Catherine não é uma mulher especialmente bonita” diz um dos personagens, e nem precisava ser linda pois com seu magnetismo e poder de sedução domina todo o filme. É Jeanne Moreau mais sedutora que nunca mesmo não sendo especialmente bonita. Exemplar na renovação da linguagem cinematográfica que mudaria a forma de se fazer filmes, “Jules e Jim” não chega a ser uma obra-prima justamente porque o ritmo apressado, cortes bruscos, pouca clareza de situações e um final tragicamente equivocado rouba parte do lirismo que Truffaut buscou atingir. 7/10






Direção: François Truffaut / Elenco: Jeanne Moreau - Oskar Werner - Henry Serre - Marie Dubois - Serge Rezvani - Vanna Urbino - Sabine Haudepin - Daniele Bassiak - Elen Bober - Michel Subor (narrador) - Jean-Louis Ruchard

quarta-feira, 29 de março de 2017

JOGOS E TRAPAÇAS / QUANDO OS HOMENS SÃO HOMENS (McCabe & Mrs. Miller), 1971


Este um insólito western do singular Robert Altman foge aos padrões convencionais do gênero com sua fotografia etérea (Vilmos Zsigmond) e trilha musical melancólica (Leonard Cohen) que criam uma atmosfera angustiante. A tristeza permeia toda a história de Jack McCabe (Warren Beatty), um empreendedor que chega a um remoto e frio povoado na fronteira com o Canadá e mesmo explorando o ramo da prostituição se defronta com a força do capitalismo e seus modos pouco leais. O vilão deste western é a grande empresa e o jogador fanfarrão e farsante McCabe está distante do modelo dos heróis comuns, ou não seria um personagem do iconoclasta diretor. Julie Christie é Mrs. Miller entre os lençóis do bordel que gerencia e o ópio que a domina. Lembrando “O Vingador Silencioso” de Sergio Corbucci, “McCabe & Mrs. Miller” teve inegável influência em “O Portal do Paraíso” e na série “Deadwood”. Recebido discretamente quando de seu lançamento, este essencial filme de Robert Altman ganhou nas últimas décadas o status de melhor obra do diretor e uma das grandes películas norte-americanas de todos os tempos. 7/10 - Resenha completa no blog http://westerncinemania.blogspot.com.br/





Direção: Robert Altman / Elenco: Warren Beatty - Julie Christie - Rene Auberjonois - Michael Murphy - Keith Carradine - Shelley Duvall - Hugh Millais - William Devane - Jace Van Der Veen- Manfred Schulz - John Schuck - Anthony Holland - Elisabeth Knight - Linda Sorensen - Carey Lee McKenzie - Jackie Crossland - Maisie Hoy - Elizabeth Murphy - Thomas Hill - Corey Fischer - Brantley Kearns - Bert Remsen

sexta-feira, 24 de março de 2017

ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco e suoi Fratelli), 1960


Para o crítico Luís Carlos Merten este é “o melhor filme de todos os tempos e deve ser assistido de joelhos...” Exageros à parte, “Rocco e seus Irmãos” narra a desventura da família Parodi, mãe e cinco filhos, que deixa o Sul da Itália para tentar a sorte em Milão. Menos uma crônica sobre a desagregação familiar e mais a contenda entre o bem e mal representados pelo puro e generoso Rocco (Alain Delon) e seu malévolo irmão Simone (Renato Salvatori). A prostituta Nádia (Annie Girardot), tanto quanto o infeliz Simone é também vítima do contexto social em que vive neste drama intenso dividido desnecessariamente em cinco atos, um para cada filho. Os demais irmãos são figuras coadjuvantes e pouco desenvolvidas num filme de três horas de duração em que Luchino Visconti busca mesclar o lirismo típico do neo-realismo com o comovente melodrama passional. Quase todo centrado no excessivamente nobre e piedoso Rocco, a tempestuosa relação entre Nádia e Simone é que envolve o espectador até porque são de Annie Girardot e Renato Salvatori as grandes interpretações do filme. Como não poderia deixar de ser Giuseppe Rotundo (imagens) e Nino Rota (música) contribuem brilhantemente para este clássico. 8/10






Direção: Luchino Visconti / Elenco: Alain Delon - Renato Salvatori - Katina Paxinou - Annie Girardot - Rocco Vidolazzi - Max Cartier - Spiros Focas - Claudia Cardinalle - Suzy Delair - Paolo Stoppa - Roger Hanin - Corrado Pani - Alessandra Panaro - Nno Castelnuovo - Sauveur Chioca - Renato Terra - Felice Musazzi.

terça-feira, 21 de março de 2017

RAINHA CHRISTINA (Queen Christina), 1933


Algumas atrizes lendárias do cinema eram lindas, outras ótimas interpretes; Greta Garbo era tudo isso e ainda dona de personalidade ímpar que se reflete com perfeição em “Rainha Christina”. Enérgica, valente e vulnerável ao mesmo tempo, Garbo faz de Christina um personagem memorável. Educada como homem para assumir o trono sueco, a jovem rainha é um protagonista andrógino na primeira parte do filme, ainda que fique difícil acreditar que passe despercebido pelo embaixador espanhol Antônio (John Gilbert) ele ser ela. O drama biográfico de Rouben Mamoulian, realizado já na vigência do abominável Código Hays, mostra Christina como lésbica (Garbo o era na vida real) com a rainha dizendo a frase famosa: “Não pretendo morrer solteiro”. Ponto alto do filme é a sequência latentemente homoerótica do encontro de Christina com Antônio que ‘corteja o rapaz’, momento que termina com ela despindo apenas um casaco e se revelando uma maravilhosa mulher. A abdicação à coroa é outra bela sequência num filme com excelente produção da MGM e com Greta Garbo fascinantemente fotografada. John Gilbert, ao contrário do que se conta, tinha boa voz mas torna seu personagem semicaricato. Maior sucesso de bilheteria de 1933 e o ápice da carreira da atriz sueca aos 28 anos de idade. 8/10






Direção: Rouben Mamoulian / Elenco: Greta Garbo - John Gilbert - Ian Keith - Elizabeth Young - Lewis Stone - Akim Tamiroff - Reginald Owen - C. Aubrey Smith - Cora Sue Collins - Gustav von Seyffertitz - Georges Ranavent - Nuriel Evans - James Burke - Edward Gargan - Paul Hurst - Fred Kohler - Ferdinand Munier

quinta-feira, 16 de março de 2017

UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie & Clyde), 1967


Os roteiristas David Newman e Robert Benton escreveram a história de Bonnie Parker e Clyde Barrow, dupla de bandidos assassinos dos tempos da recessão. Contataram Warren Beatty para produzir e queriam Jean-Luc Godard para dirigir, certamente porque assistiram “Pierrot Le Fou” que também tem uma dupla de transgressores da lei. Godard pulou fora do projeto que acabou nas mãos de Arthur Penn que fez de “Uma Rajada de Balas” um dos filmes mais importantes da década, influenciando a moda, rendendo muitas músicas sobre o tema e fazendo com que Hollywood nunca mais fosse a mesma ao tratar da violência. Em “Uma Rajada de Balas” Penn incorporou um pouco do estilo da Nouvelle Vague e acrescentou pitadas de humor por vezes desnecessárias. O melhor do filme são as sequências de ação (fuga da polícia no motel e a emboscada final), além da Direção de Arte de Dean Tavoularis. Bonnie Parker e Clyde Barrow ficariam felizes se vissem como ficaram bonitos interpretados por Faye Dunaway e Warren Beatty, mas os melhores em cena são os veteranos Denver Pyle e Dub Taylor. Enorme e merecido sucesso de bilheteria, “Bonnie & Clyde” concorreu ao Oscar em dez categorias levando o de Melhor Fotografia e de Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), num ano de disputas sensacionais. 8/10






Diretor: 

segunda-feira, 13 de março de 2017

DO MUNDO NADA SE LEVA (You Can't Take it with You), 1938


Populista, idealista ou demagogo, Frank Capra pode ser adjetivado de muitos modos por seus filmes, especialmente por “Do Mundo Nada se Leva”. Porém dificilmente o mais radical de seus críticos deixará de rir com esta comédia que se passa em sua maior parte numa casa pertencente a uma excêntrica família cujo patriarca tem por lema “Nada material tem valor na vida”. Condena ele todo tipo de ‘ismos’ como comunismo, fascismo, esquecendo-se de anarquismo. O estilo de vida de Martin Vanderhoff (Lionel Barrymore), que há décadas se empenha em fazer amigos, conflita com a ganância de Anthony P. Kirby (Edward Arnold) que, ao contrário dedicou sua existência a aumentar a fortuna herdada. Em meio a hilariantes confusões desfilam tipos tão bizarros quanto engraçados, sendo o mais divertido deles o professor de dança russo (Mischa Auer) que tem como aluna a já deliciosa Ann Miller aos 15 anos de idade. Estréia no cinema de Dub Taylor num filme dominado por Barrymore e Arnold e com James Stewart parecidíssimo com Stan Laurel. “Do Mundo Nada se Leva” recebeu o Oscar de Melhor Filme e Capra o de Melhor Diretor (seu terceiro e último Oscar). Datado em seu conteúdo social, as risadas são garantidas, assim como o sentimentalismo infalível de Capra. 8/10




Diretor: