quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the OK Corral), 1957


Tanto o produtor Hal B. Wallis como o diretor John Sturges não gostavam da versão de John Ford sobre Wyatt Earp e o evento no Curral OK. Sturges chegou mesmo a dizer que o western de Ford era uma ‘merda’ e Wallis sonhava produzir um faroeste que mostrasse Wyatt Earp e Doc Holliday desmistificados. E claro, de olho no sucesso pois acima de tudo ele era um produtor e cinema existia para se ganhar dinheiro. Foi reunido um grande elenco encabeçado por Burt Lancaster e Kirk Douglas, bela fotografia de Charles Lang em VistaVision, Dimitri Tiomkin bastante inspirado e o vozeirão de Frankie Laine cantando o marcante tema principal. Sturges realizou um excelente western historicamente tão irreal como “Paixão dos Fortes”. Tanto que dez anos depois o diretor voltou ao mesmo tema com “A Hora da Pistola’ para corrigir o roteiro de Leon Uris escrito para “Sem Lei e Sem Alma” que mostra uma latente relação homossexual entre Wyatt e Doc. Lancaster chegou a dizer que esses dois personagens “mais pareciam duas bichas pré-freudianas”. Kirk Douglas tem desempenho excepcional, seguido por Jo Van Fleet e Lancaster só deixa de fazer discursos durante o célebre tiroteio. Enorme sucesso de público este é um western que divide as opiniões que só convergem quanto a ser, apesar de tudo, imperdível. 8/10 - Resenha completa no blog http://westerncinemania.blogspot.com.br/

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

20.000 LÉGUAS SUBMARINAS (20,000 Leagues Under the Sea), 1954


Esta foi a primeira produção da Buena Vista, dos estúdios de Walt Disney, levando às telas o clássico de ficção-científica escrito em 1870 por Jules Verne (Júlio Verne, para nós), da série ‘Viagens Extraordinárias’. E que extraordinária viagem cinematográfica essa dirigida por Richard Fleischer, verdadeiramente assombrosa à época de seu lançamento, que no Brasil ocorreu em 1955 acompanhada por um álbum de figurinhas da Editora Vecchi com cromos com as fotos do filme. Milhares de garotos foram então ‘apresentados’ a Kirk Douglas vibrando com ele em sua aventura à bordo do Nautilus lutando contra diversos inimigos, inclusive um polvo gigante. Mas nenhum inimigo tão ameaçador quanto o delirante Capitão Nemo vivido por James Mason. Gregory Peck foi o primeiro nome cogitado para interpretar o marinheiro ‘Ned Land’ e Walt Disney acertou em cheio ao pagar 175 mil dólares a Kirk Douglas que criou um herói inesquecível. A história já havia sido filmada em 1916 e “20.000 Léguas Submarinas” assistido mais de 60 anos depois, nestes tempos em que cinema se confunde com efeitos especiais, continua um divertimento imperdível. 8/10

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

QUEM É O INFIEL? (A Letter to Three Wives), 1949


Realizado pela 20th Century-Fox e mesmo tendo sido premiado com dois Oscars – Melhor Direção e Melhor Roteiro, recebidos por Joseph L. Mankiewicz – este é um dos filmes menos lembrados entre aqueles da primeira fase da carreira de Kirk Douglas. Examinando a vida de três casais de classe média, Mankiewicz cria uma trama inusitada na qual um dos três maridos trai a esposa. Elas são avisadas por uma carta que as deixa em pânico e faz com que, através de flashbacks, relembrem da ameaça a seus lares chamada ‘Addie Ross’, a amiga comum das três esposas e que em comum tem ainda o fato de ser admirada pelos três maridos. O inteligente roteiro sugere que as esposas não poderiam mesmo confiar na amiga fatal, também a narradora invisível da história (voz de Celeste Holm). O espectador é desafiado a descobrir qual dos maridos sucumbirá, num final surpreendente que perde a força em função do feliz ‘The End’ que o filme não merecia. Como um mal remunerado professor de Literatura, Kirk Douglas tem alguns dos melhores momentos do filme. Ann Sothern é a esposa de Douglas e Jeanne Crain e Linda Darnell são as outras duas, num elenco em que se destacam Paul Douglas e Thelma Ritter. 7/10

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ÊXITO FUGAZ (Young Man with a Horn), 1950


Mas como? Kirk Douglas era trompetista? Não, não era, assim como não sabia lutar boxe, montar a cavalo, tocar banjo e tantas outras habilidades às quais sua determinação e profissionalismo o levou a executar com perfeição. Para interpretar o lendário Bix Beiderbecke, biografado como ‘Rick Martin’ em “Êxito Fugaz”, Douglas tem mais uma admirável performance ainda que quem toque de verdade em seu lugar seja Harry James. Bix Beiderbecke morreu aos 28 anos em 1931 e essa biografia ficcional foi escrita em 1945, com a Warner logo pensando em John Garfield para protagonizá-la. Sabiamente Jack Warner optou por seu contratado Kirk Douglas, então com 33 anos em 1949, ele que havia impressionado com seu desempenho como boxeur em “O Invencível”, naquele mesmo ano. A direção foi entregue à competência de Michael Curtiz que desta vez ficou abaixo dos grandes filmes que fazia um atrás do outro. Mesmo assim “Êxito Fugaz” é uma festa para os fãs de música com a maravilhosa Doris Day cantando e encantando com alguns standards da canção norte-americana e a presença de Hoagy Carmichael que, na vida real, tocara com Beiderbecke. Lauren Bacall é a mulher que destrói a vida do trompetista e uma pena que o forçado final feliz ignore o trágico fim do músico que em seu tempo só tinha Louis Armstrong com talento semelhante. 7/10

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

VIKINGS, OS CONQUISTADORES (The Vikings), 1958


Por Odin! Esta pode não ser a melhor das aventuras do cinema com sequências em alto mar, mas certamente é a mais bonita, isto graças à excepcional fotografia de Jack Cardiff que por si só vale pelo filme produzido e estrelado por Kirk Douglas. Porém “Vikings, os Conquistadores” é diversão Classe A com Douglas exuberante no melhor de sua forma física como o viking Einar. Excelentes sequências de batalha e uma impressionante tomada de um castelo que culmina com Douglas enfrentando Tony Curtis, seu meio irmão, ambos filhos de Ragnar, rei viking interpretado com a doce brutalidade que era a marca registrada de Ernest Borgnine. Curtis e Douglas disputam o amor da frágil e linda princesa galesa Janet Leigh num espetáculo com ritmo e imagens tão perfeitas que até esquecemos das ingênuas coincidências do roteiro. Há ainda o rigor na reprodução das vestes, armas, costumes e especialmente as réplicas dos navios vikings. Filmado em boa parte nos fiordes da Noruega, esta produção da Bryna fez enorme sucesso de público, boa parte dele apaixonado pelo então casal mais querido do cinema, Tony e Janet. Mas o filme é mesmo de Kirk Douglas, seguido de perto por Ernest, um ano mais novo que Kirk e aqui vivendo seu pai. 8/10

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

GLÓRIA FEITA DE SANGUE (Paths of Glory), 1957


Perguntado sobre qual filme mais teve orgulho em fazer, Kirk Douglas respondeu de pronto: “Sem dúvida, ‘Glória Feita de Sangue’ pela força, coragem e atualidade que mantém”. O ator poderia ter dito mais, como por exemplo que esse filme realizado por Stanley Kubrick aos 29 anos de idade beira a perfeição e é verdadeira aula de como se fazer cinema, inclusive com pouco dinheiro. Custou 935 mil dólares, um terço do que foi gasto com “A Ponte do Rio Kwai”, também de 1957 e que arrebatou uma penca de Oscars. Como muitos outros grande filmes, “Glória Feita de Sangue” sequer foi lembrado em nenhuma categoria, nem mesmo diante da soberba interpretação de George Macready como o odioso General Mireau. Magistralmente Kubrick mostra que morrem em batalha os homens simples enquanto os aristocratas com o peito coberto de medalhas se reúnem em luxuosos castelos onde tramam promoções a custa de calculadas morte nos campos de guerra. Talvez o mais cruel dos filmes, com os sórdidos dez minutos iniciais de diálogo nauseabundo entre os dois generais franceses. A farsa do tribunal militar montado para condenar três soldados cuja execução ‘servirá de tônico para a divisão’ e o impressionante travelling da câmara de Kubrick na trincheira são igualmente pontos altos. O diretor chegou a pensar num final feliz, ideia ainda bem rechaçada e o filme se fecha poeticamente com a moça alemã e soldados (que logo certamente morrerão) irmanados numa terna canção de amor. Obra-prima. 10/10

domingo, 27 de novembro de 2016

A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the Hole), 1951


Antes de se especializar em destilar seu cinismo diante das fraquezas do ser humano através de suas sarcásticas comédias, Billy Wilder era áspero e cruel. Cruel demais para o gosto norte-americano especialmente com este filme sobre o trabalho da imprensa e que se transformou em um raro fracasso para Wilder. Isto mesmo com a presença de Kirk Douglas encabeçando o elenco. Injusto fracasso pois “A Montanha dos Sete Abutres” é um dos melhores filmes da admirável filmografia de Wilder. Relato amargo que, mais que a imprensa sensacionalista, denuncia o próprio cidadão norte-americano que se deixa conduzir em histeria coletiva para assistir a uma tragédia individual. O inescrupuloso repórter Charles Tatum (Douglas) prolonga ao máximo a agonia de um homem soterrado visando com isso recuperar o respeito que perdera como jornalista de órgãos importantes. Insensível e manipulador, Tatum alicia a corrupta lei na figura do sheriff de Albuquerque (Ray Teal) e despe psicologicamente uma das mais sórdidas mulheres (Jan Sterling) já vistas no cinema. Kirk Douglas interpreta intensa e vigorosamente o abjeto repórter neste drama que o tempo se incumbiu de cada vez mais valorizar. 9/10

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A RODA DA FORTUNA (The Bad Wagon), 1953


Na década de 50 a MGM produziu alguns dos melhores musicais de todos os tempos. E quase todos eram entretenimentos leves, mesmo considerando que “Os Três Mosqueteiros” (1948) baseou-se no alegre clássico de Alexandre Dumas e o premiadíssimo “Sinfonia de Paris” foi o mais pretensioso musical daqueles tempos. Ainda demoraria para que Shakespeare vertido para as ruas de Nova York desse tons mais trágicos a um musical pois “West Side Story” só tomaria de assalto a Broadway em setembro de 1957. Curioso portanto que “A Roda da Fortuna”, musical de Vincente Minelli propusesse que musicais não devessem fugir de tentativas de adaptações de clássicos como “Fausto” e se pautassem pelo ‘That’s Entertainment’, por sinal um dos melhores números deste filme, ao lado do encantador “Dancing in the Dark” (Fred Astaire e Cyd Charisse), do delicioso “Triplets” (Astaire, Nanette Fabray e Jack Buchanan) e de “A Shine on Your Shoes” (Astaire e Leroy Daniels). “A Roda da Fortuna” fala ainda do esquecimento dos antigos astros e da quase mesma estatura da dupla principal. Mas quem se importa com isso se vê-los dançar é algo transcendente. 7/10

terça-feira, 22 de novembro de 2016

PÃO, AMOR E CIÚME (Pane, Amore e Gelosia), 1954


Para atenuar o sofrimento deixado pela II Grande Guerra, a Itália passou a produzir um número incrível de comédias com nuances do neo-realismo e uma das melhores dessas comédias foi “Pão, Amor e Fantasia”, que Luigi Comencini rodou em 1953, alcançando enorme sucesso. O público adorou ver Vittorio De Sica atuando ao lado de Gina Lollobrigida, ele como o ‘Maresciallo Carotenuto e ela como ‘La Bersagliera’. No ano seguinte houve a sequência “Pão, Amor e Ciúme”, tão ou mais engraçada que a primeira pois colocava o ‘Maresciallo’ em situações ainda mais  constrangedoras no pequeno lugarejo do Sul da Itália chamado Sagliena. Lá ocorriam não apenas fantasias ou ciúmes, mas mexericos aos montes feitos pelas maledicentes línguas do povo local que tinha esse condenável mas característico hábito. E bem que o ‘Maresciallo’ merecia ser a maior vítima dos comentários pois nenhuma mulher bonita lhe escapava ao assédio. E em Sagliena havia ‘La Bersagliera’, a melhor expressão do pecado com sua vivacidade, petulância e formosura. Tão deliciosas foram estas duas comédias de Comencini que a série continuou com “Pão, Amor e...” com Sophia Loren substituindo Gina e ainda “Pão, Amor e Andaluzia” (1955), esta com Carmen Sevilla e De Sica sempre como o libidinoso comandante Carotenuto. 8/10

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

PACTO DE SANGUE (Double Indemnity), 1944


Antes de dirigir o melhor filme sobre Hollywood e a melhor comédia do cinema (“Crepúsculo dos Deuses” e “Quanto Mais Quente Melhor”), o austríaco Billy Wilder havia realizado também o melhor de todos os policiais noir que foi “Pacto de Sangue”. Partindo de uma história de James M. Cain, Billy Wilder se reuniu com o escritor Raymond Chandler para escrever um roteiro perfeito eivado de frases em que a mordacidade só é superada pela inteligência das mesmas. Neste modelo de filme noir não só a envolvente trama mas e especialmente o suspense que Wilder cria em diversos momentos desconcerta e seduz o espectador, do mesmo modo que o corretor de seguros interpretado por Fred MacMurray se mostra impotente para escapar do fascínio exercido por Barbara Stanwyck. Pela primeira vez em sua carreira como uma criminosa, Barbara é adúltera e perversamente calculista, usando uma peruca loura e uma pulseira no tornozelo que enlouquece MacMurray. As sinistras persianas avisam o espectador da tragédia que se avizinha capturada pela estupenda fotografia de John F. Seitz e com a brilhante trilha de Miklos Rosza. Edward G. Robinson é o sagaz inspetor da seguradora que não descobre o crime quase perfeito. 10/10